Veja bem, não é que eu seja paranoico (sem o acento, conforme manda a nova gramática do bom português; reparar também no título, andei treinando), mas como o seguro morreu de velho já estoquei aqui em casa quatro galões de 50 litros de álcool em gel e algumas sacas de máscaras hospitalares, a fim de prevenir para depois não ser necessário remediar. Telefonei ainda hoje mesmo para o Flávio, o balconista do Luzitano (assim mesmo, com “z”), meu bar predileto, para avisar que, por recomendações de jornais e neuróticos em geral, não darei a honra de minha digníssima presença nos próximos dias. Ressaltei, é claro, que não estava nem aí para as opiniões de infectologistas renomados, que nos mandam não entrar em pânico. Certos estão os jornais, em suas minúsculas caixinhas de psicose, é óbvio, como sempre estiveram, todos nós sabemos disso. Alertei também meu chefe resmungão para o fato de que não comparecerei ao trabalho até que tudo não volte à normalidade (ou àquela balbúrdia sideral e delinquente a que nos acostumamos, como nos acostumamos a quase tudo nesta vida, a chamar de normalidade).
Entrincheirei-me em casa, de espingarda em punho – e pretendo receber a bala qualquer coisa que se aproxime além de 50 metros.
Você pode achar que eu estou de zoação, mas não estou. A situação é da mais extrema gravidade. Escolas e universidades pararam, e-mails mal-escritos nos alertam diariamente, até o movimento nos shoppings diminuiu (esses sim, um excelente indicador do estado das coisas). A levar em conta pelas manchetes dos jornais, Deus, extremamente aborrecido com as besteiras que nos vê fazendo na terra desde sempre, de paciência farta, mandou cá para nós algo mais terrível do que a mais terrível das pragas bíblicas: a gripe. (Sabemos nós, moradores de Curitiba, que nas últimas duas semanas Ele até tentou nos matar com um dilúvio, mas falhou, nós aqui já estamos escaldados, daí a gripe.)
Gravíssima, a situação, como se pode ver. Até circulam por aí boatos de que todo esse alarde é só mais uma campanha Serra/grande mídia para desestabilizar o Governo Federal; mas nós, que não somos bobos nem nada, sabemos que isso só pode ser coisa de comunista, coisa dessa corja da esquerda, coisa desses agentes da subversão liderados pelo Lula, que vivem querendo sacanear o país, distribuir renda, dar vale-cultura aos pobres, essas coisas sem a mínima importância, essas indecências plebeias (de novo, sem acento, veja como estou antenado com a nova ortografia). Fizeram a mesma coisa com a febre amarela, disseram que não era nada; mas de novo nós, bem informados que somos, sabemos que a febre amarela matou milhares, milhões, quase dizimou a população deste país. Levou consigo, inclusive, uns dois ou três mais afoitos que, por conta dos alertas dos jornais, acabaram se vacinando mais do que deveriam e, zás!, tiveram um efeito colateral. Tudo culpa dos comunistas, dos esquerdistas, dos “petralhas”.
Conspirações à parte, isso agora não vem ao caso, águas passadas não movem moinhos, a gente não vive de passado. Agora a questão é outra, a febre amarela saiu de moda, é preciso dar outra coisa para manada ir atrás, de um jeito ou de outro – a gripe. Gripe suína. Ou A(H1N1) – embora eu prefira “gripe suína”, por conta da notória dificuldade de encaixar o segundo termo em uma conversa de corredor.
A gripe. Você já pegou várias, arrastando-se por dentro de casa com o nariz escorrendo, tremelicando de frio, e com o corpo que parecia haver sido há pouco atropelado por um biarticulado. Sobreviveu, sim, é natural que tenha sobrevivido. Mas agora, digo-lhe, é diferente, essa nova gripe é mortífera, uma praga divina – provavelmente só as baratinhas sobreviverão. O índice de letalidade é baixíssimo, semelhante ou menor ao da gripe comum? Balela, todo mundo sabe que isso é balela desses médicos que não sabem o que dizem, a verdade é que isso é uma prévia, qualquer ser dotado de dois ou três neurônios tem consciência de que todos esses vírus H1N1 estão se juntando para nos pegar desprevenidos, tão logo os vigilantes jornais se distraiam. As implicações e o tratamento são semelhantes aos da gripe comum? O sistema de saúde está preparado para atender os grupos de risco? Outras mentiradas descabidas dessa classe médica que não entende nada de medicina, se entendesse não estaria clinicando e sim escrevendo nos suplementos de saúde dos jornais, essas sim pessoas sapientes que entendem do riscado.
Que fazer, então? Fazer, oras, o que os jornais mandam (entrar em pânico, atulhar postos de saúde, disseminar o alarde, o caos, correr para as colinas ao menor espirro), que os jornais não mentem, todos conhecemos a inabalável integridade dos jornais. E rezar, orar com força, com fé, com afinco, para que o Deus todo-piedoso, em sua infinita bondade, nos alivie mais essa.
Farei minha parte e começarei a andar aqui em casa de máscara, como um cirurgião do Plantão Médico. E de espingarda, como o Bacamarte, que estou de olho vivo, nunca se sabe quando um infectado mal-intencionado aparecerá pelo caminho querendo me apertar a mão. É preciso ficar esperto; estão abolidas até mesmo as regras de boa educação. Nada de apertos de mão, conforme já foi alertado, e me contou posteriormente, um colega de trabalho.
(Rindo-se, é claro, já que sujeito sensato, ele é meu cúmplice nessa empreitada de rir-se da paranoia coletiva.)