troços & destroços

agosto 4, 2009

Para Noia

Filed under: crônicas — Sandoval Matheus @ 5:22 am

Veja bem, não é que eu seja paranoico (sem o acento, conforme manda a nova gramática do bom português; reparar também no título, andei treinando), mas como o seguro morreu de velho já estoquei aqui em casa quatro galões de 50 litros de álcool em gel e algumas sacas de máscaras hospitalares, a fim de prevenir para depois não ser necessário remediar. Telefonei ainda hoje mesmo para o Flávio, o balconista do Luzitano (assim mesmo, com “z”), meu bar predileto, para avisar que, por recomendações de jornais e neuróticos em geral, não darei a honra de minha digníssima presença nos próximos dias. Ressaltei, é claro, que não estava nem aí para as opiniões de infectologistas renomados, que nos mandam não entrar em pânico. Certos estão os jornais, em suas minúsculas caixinhas de psicose, é óbvio, como sempre estiveram, todos nós sabemos disso. Alertei também meu chefe resmungão para o fato de que não comparecerei ao trabalho até que tudo não volte à normalidade (ou àquela balbúrdia sideral e delinquente a que nos acostumamos, como nos acostumamos a quase tudo nesta vida, a chamar de normalidade).

Entrincheirei-me em casa, de espingarda em punho – e pretendo receber a bala qualquer coisa que se aproxime além de 50 metros.

Você pode achar que eu estou de zoação, mas não estou. A situação é da mais extrema gravidade. Escolas e universidades pararam, e-mails mal-escritos nos alertam diariamente, até o movimento nos shoppings diminuiu (esses sim, um excelente indicador do estado das coisas). A levar em conta pelas manchetes dos jornais, Deus, extremamente aborrecido com as besteiras que nos vê fazendo na terra desde sempre, de paciência farta, mandou cá para nós algo mais terrível do que a mais terrível das pragas bíblicas: a gripe. (Sabemos nós, moradores de Curitiba, que nas últimas duas semanas Ele até tentou nos matar com um dilúvio, mas falhou, nós aqui já estamos escaldados, daí a gripe.)

Gravíssima, a situação, como se pode ver. Até circulam por aí boatos de que todo esse alarde é só mais uma campanha Serra/grande mídia para desestabilizar o Governo Federal; mas nós, que não somos bobos nem nada, sabemos que isso só pode ser coisa de comunista, coisa dessa corja da esquerda, coisa desses agentes da subversão liderados pelo Lula, que vivem querendo sacanear o país, distribuir renda, dar vale-cultura aos pobres, essas coisas sem a mínima importância, essas indecências plebeias (de novo, sem acento, veja como estou antenado com a nova ortografia). Fizeram a mesma coisa com a febre amarela, disseram que não era nada; mas de novo nós, bem informados que somos, sabemos que a febre amarela matou milhares, milhões, quase dizimou a população deste país. Levou consigo, inclusive, uns dois ou três mais afoitos que, por conta dos alertas dos jornais, acabaram se vacinando mais do que deveriam e, zás!, tiveram um efeito colateral. Tudo culpa dos comunistas, dos esquerdistas, dos “petralhas”.

Conspirações à parte, isso agora não vem ao caso, águas passadas não movem moinhos, a gente não vive de passado. Agora a questão é outra, a febre amarela saiu de moda, é preciso dar outra coisa para manada ir atrás, de um jeito ou de outro – a gripe. Gripe suína. Ou A(H1N1) – embora eu prefira “gripe suína”, por conta da notória dificuldade de encaixar o segundo termo em uma conversa de corredor.

A gripe. Você já pegou várias, arrastando-se por dentro de casa com o nariz escorrendo, tremelicando de frio, e com o corpo que parecia haver sido há pouco atropelado por um biarticulado. Sobreviveu, sim, é natural que tenha sobrevivido. Mas agora, digo-lhe, é diferente, essa nova gripe é mortífera, uma praga divina – provavelmente só as baratinhas sobreviverão. O índice de letalidade é baixíssimo, semelhante ou menor ao da gripe comum? Balela, todo mundo sabe que isso é balela desses médicos que não sabem o que dizem, a verdade é que isso é uma prévia, qualquer ser dotado de dois ou três neurônios tem consciência de que todos esses vírus H1N1 estão se juntando para nos pegar desprevenidos, tão logo os vigilantes jornais se distraiam. As implicações e o tratamento são semelhantes aos da gripe comum? O sistema de saúde está preparado para atender os grupos de risco? Outras mentiradas descabidas dessa classe médica que não entende nada de medicina, se entendesse não estaria clinicando e sim escrevendo nos suplementos de saúde dos jornais, essas sim pessoas sapientes que entendem do riscado.

Que fazer, então? Fazer, oras, o que os jornais mandam (entrar em pânico, atulhar postos de saúde, disseminar o alarde, o caos, correr para as colinas ao menor espirro), que os jornais não mentem, todos conhecemos a inabalável integridade dos jornais. E rezar, orar com força, com fé, com afinco, para que o Deus todo-piedoso, em sua infinita bondade, nos alivie mais essa.

Farei minha parte e começarei a andar aqui em casa de máscara, como um cirurgião do Plantão Médico. E de espingarda, como o Bacamarte, que estou de olho vivo, nunca se sabe quando um infectado mal-intencionado aparecerá pelo caminho querendo me apertar a mão. É preciso ficar esperto; estão abolidas até mesmo as regras de boa educação. Nada de apertos de mão, conforme já foi alertado, e me contou posteriormente, um colega de trabalho.

(Rindo-se, é claro, já que sujeito sensato, ele é meu cúmplice nessa empreitada de rir-se da paranoia coletiva.)

abril 14, 2009

O homem frente à churrasqueira

Filed under: crônicas — Sandoval Matheus @ 5:49 pm

Quando vi aquele prato de um verde cinzento, agrião e rúcula banhados em azeite de oliva, identifiquei imediatamente no homem calvo na mesa ao lado um adversário da espécie. Veja bem: não é que eu não goste de vegetarianos; apenas os acho pessoas aborrecidas. Aquela nesga de floresta escura (“vou comer só uma saladinha”, explicou o homem para a senhora ao lado) que compunha o prato frugal me pareceu um profundo desestímulo à vida. A constrangedora tentativa da rodela de beterraba e da cenoura ralada de imprimir alguma vitalidade ao prato foi apenas uma falha forma de dissimular a repulsa daquele senhor – por que não de toda uma geração? – à natureza humana.

Tudo bem. Descemos das árvores, nos civilizamos, criamos burgos, cidades, metrópoles, megalópoles, inventamos o dinheiro, o cartão de crédito, cobrimos nossas genitálias entrando em blue jeans e fomos morar em apartamentos com banheiros asseados; nada contra, até aí, mas abolir a carne já é se insurgir contra nossa sobrevivência. Concordo que nos últimos séculos fizemos muitas besteiras – dos navios negreiros a Bush -, mas acho que a humanidade merece uma segunda chance; matá-la à míngua não é a solução.

Nossos mais remotos ancestrais caçavam, vestiam-se com peles de animais, brigavam contra as forças da natureza. Admitamos nós ou não, fazemos parte do lado bárbaro da criação. Esse DNA carnívoro está inscrito em nossa arcada dentária. Não vamos mais a campo com arremedos de lanças feitas de pedra lascada combater animais primitivos, porém é na mesa, de frente para um churrasco, que nos deparamos com o que realmente somos: animais com a licença natural de quem está no topo da cadeia alimentar – embora tenhamos aprendido a usar talheres
.
Não há nada mais natural, então, do que um churrasco, talvez um resquício de alguma cerimônia tribal que celebrava a fartura, o fato de que os homens haviam se dado bem na caçada e o futuro da tribo estava garantido. A natureza nos fez seres brutos; a alimentação saudável e a carne de soja foram invenções despropositadas do homem moderno. Cerquem, então, as churrasqueiras, coloquem a picanha na brasa, abram as cervejas, descasquem os limões para a caipirinha. Celebremos, trinchando pedaços de pernil, a sobrevivência da espécie.

março 27, 2009

Extinção (ou Crônica de uma morte idiotizada)

Filed under: crônicas — Sandoval Matheus @ 6:56 pm

Naquela manhã, acordou às 6h30 e deixou-se ficar alguns momentos, sentindo-se pleno; apreciava, inclusive, o toque do despertador paraguaio, quase uma melodia (“ti ni ni nim”, “ti ni ni nim”, “ti ni ni nim”). Então saltou da cama com a disposição de um saltimbanco e arreganhou a janela para o dia que se levantava, bocejando; tudo pareceu-lhe agradável como uma fatia de bolo. Um sorriso da mais extrema satisfação coseu-se ao seu rosto, os músculos da face parecendo dispôr de uma flexibilidade de bailarina. Não importou-se com o fato daquele início de manhã não dar qualquer motivo para tão absoluto contentamento. O dia começava com ar severo, feio como um cenho franzido, e com um chuvisco que fazia pensar em polvilho d’água – o tipo de chuvisco que em dias ruins anuncia desde cedo que as próximas horas serão irremediavelmente calamitosas. Mas Roberto, em sua felicidade pueril, continua a exibir seu grande e resoluto sorriso, enquanto à janela deixava a garoa mosquear-lhe a cara.

Às sete horas, após escovar os dentes e entrar em calças e camisa, tomou o mais saboroso café da manhã de sua vida – pão, manteiga, café puro – e deu uma olhadela no jornal. Comentou algumas notícias com o cachorro. Os cães, notadamente, não são reconhecidos no reino animal por serem seres muitíssimo bem informados, e talvez por isso Beirute – era esse o nome do cachorro – tenha achado mais conveniente guardar silêncio. Contentou-se em abanar o rabinho e deitar-se aos pés do dono – que continuou a falar-lhe sobre política internacional e sobre uma marquise que havia despencado em um bairro próximo. Mantinha o mesmo ar pleno e satisfeito de quando acordara, apesar de a cada página virada uma nova bomba lhe ser atirada ao colo; o mundo ia de mal a pior, segundo o noticiário; fome, peste e guerra, talvez fosse o Apocalipse. Se fosse, tanto fazia. Anunciasse o jornal o fim do mundo para o dia seguinte e Roberto provavelmente apenas abanaria a cabeça de um lado a outro, um leve sorriso nos lábios, como quem diz que “tudo bem, que se há de fazer? De qualquer forma não poderia durar para sempre, poderia?”.

Às 7h30, Beirute pô-se a passear pela sala minúscula, a língua sôfrega pendendo-lhe da boca, enquanto Roberto lavava a louça, cantarolando. Tarefa findada, pegou serelepe a maleta, afagou a cabeça do cachorro e solicitou, rindo, que na sua ausência ele se comportasse como o cãozinho simpático que era. Apanhou as chaves, abriu a porta e saiu para os corredores bege-prédio-de-apartamentos do prédio de apartamentos bege em que morava. No alto da escada, porém, tropeçou nos cadarços dos sapatos que ele, distraído enquanto se entretinha com seu próprio bem-estar, havia esquecido de amarrar. Rolou por quatorze degraus e estatelou-se frente à porta que dava para a rua.

Morreu de concussão, aos 25 anos, no dia em que havia finalmente tomado a decisão de esmurrar seu chefe.

março 6, 2009

A graça das ruas

Filed under: crônicas — Sandoval Matheus @ 3:01 am

Contam-me os mais antigos e próximos a mim que na época deles, lááá no interior, não havia ruas; apenas picadas, abertas por carroças mato a dentro. As picadas, naturalmente, não eram batizadas. Ou eram mais ou menos batizadas: o carreiro que passa pela casa de Fulano, a estradinha que vai para Sicrano, et cetera. E vivia-se muito bem, obrigado, sempre de acordo com o que contam-me eles.

Mas daí veio o progresso. Está sempre aí, o progresso. Desde que descemos das árvores, progredimos muitíssimo. E o progresso mandou que edificássemos cidades e abríssemos ruas e largas avenidas pavimentadas, com semáforos, faixas de pedestres, cruzamentos mortíferos e aborrecidos guardas de trânsito, tudo conforme dita o figurino. Devidamente batizadas, é claro; de bastardas já nos foram suficientes os carreiros, picadas e estradinhas antigas. E batizar ruas é tarefa das mais árduas. Afinal, não se pode chamar de João Goulart o que tem cara de Getúlio Vargas. As ruas têm personalidade; algumas são um pouco psicopatas, com seus esfaqueamentos e mortes à bala, mas têm personalidade – isso é inegável.

Em algum lugar, por exemplo, deve haver alguma rua com cara de Dercy Gonçalves. Basta procurar mais escrupulosamente. Tanto é assim que um vereador de Curitiba achou por bem elaborar um projeto que manda batizar alguma via da cidade com o nome de Dercy Gonçalves, criatura também antiguíssima, tal qual as estradas de tempos atrás. O projeto já foi aprovado em primeira discussão. Qual rua receberá a graça de Dercy Gonçalves ainda não se sabe. Creio que será feito um estudo preliminar; é preciso deliberar a respeito, o que deve render ainda algumas discussões. Possivelmente sairão os vereadores atrás de uma rua decrépita e desbocada, daquelas que cortam o centro velho, flanqueadas por botequins que reúnem bêbados mal-ajambrados e descorteses.

Lá em Nova Iorque – o exemplo vem de cima, do norte – acabam também de rebatizar uma rua; chama-se agora U2. Não conheço Nova Iorque, portanto não sei onde fica a referida rua. Pouca diferença isso faz também. A “homenagem” da cidade à banda irlandesa durará apenas uma semana. Depois a rua retomará o nome – ou o número – usurpado, seja qual for, feliz, pois descobriu que o amava depois de o ter perdido – como, não raro, acontece com todos nós.

Mas Nova Iorque não é importante. Voltemos à terrinha. Paulo Frote, o vereador em questão, fã de Dercy Gonçalves e que acha uma coisa muito sem graça essa aporrinhação de legislar, justifica – como se de justificações nós precisássemos diante de tamanha epifania – sua ideia. Deixemos ele com a palavra: “É melhor do que dar nome de peixe, fruta ou flor para as ruas. Se a pessoa tem o mérito para ser lembrada, é nosso dever destacá-la”. Pessoas de bom senso haverão de concordar. Deverá ser mesmo muito desagradável chamar-se Carambola… ou Barracuda, por exemplo.

Eu não gostaria.

janeiro 16, 2009

Crônica feia

Filed under: crônicas — Sandoval Matheus @ 11:24 pm
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(Ainda no esquema do Apanhadão)

Não me importo com o fato de ser feio. Não me importo com a magreza atávica e irremediável (passei a infância toda sendo obrigado a engolir intragáveis e torturantes tonificantes que de nada adiantaram), com os ossos dos cotovelos à mostra; nem com a altura excessiva, o que chega a me deixar divertido de tão desengonçado; não me importo com o rosto estranho, que parece cortado a machado. Aliás, como tudo é feio, o conjunto chega até a ter certa harmonia; fica suportável aos olhos. Por isso, vou mais longe, e procuro quase que obsessivamente esculhambar minha sintaxe física de vez. Daí os cabelos longos e indômitos de espantalho e a barba rala que (por teimosia e preguiça) deixo crescer, pra acabar ficando com aquela aparência de quem tomou o último banho há uma semana.

É um convicção política, isso de não se importar em ser feio – chega-se a gostar de ser feio. Ser feio é estar à esquerda do espectro; a beleza é a direita. A beleza não se rebela, não se insurge, não pega em armas; a beleza é conformista e conservadora. Nenhuma grande reforma foi iniciada pela beleza, pelos bem asseados. As revoluções são feitas pelos feitos, pelos infectos, pelos despojados e mulambentos. A fealdade é punk, é o sorriso podre de Johnny Rotten. A fealdade é vermelha. E se a história tem mesmo um fim, o fim é nosso (a bênção, seu Karl Marx). Os feios, ao fim, vencerão.

Vou além. Ninguém de olhar menos sonolento se importa com a beleza. A beleza não é curiosa, interessante; a beleza é estandarte, brasão. Curioso mesmo são as mulheres barbadas. Por isso o mundo da ciência se curva diante de nós, os feios; pesquisa a feiúra. A sociologia nos defende, nos protege. Os sociólogos se interessam pelo pobre, pelo carente, pelo déficit sanitário, pelo desorganizado, pelo outsider – em suma, pelo feio. Está cientificamente e quantitativamente comprovado nos anais das pesquisas antropológicas e sociológicas: ser feio é interessante. Ser bonito, não. O bonito já está resolvido, é equação sem incógnita, problema tediosamente solúvel, coisa chata, sem graça, besta de doer. Veja só: uma mulher excessivamente bonita vai ser só isso. Qual é a graça? A beleza, de fato, está em ficar procurando defeitinhos, encontrando-os e achando-os bonitos. Está aí uma coisa que as mulheres precisam entender: os homens também amam as feias; não raro acima de tudo amam as feias.

Por quê? Porque ser bonito é ser constitucional; ser bonito é estar de acordo com a legislação, seguir às leis à risca; ser bonito é bom-mocismo e bom-mocismo é chato.

Mais chato do que ser bonito, só ser feio e ficar tentando reformar a lataria, como se fosse carro velho. Não orna. Um Chevette 79 vai ser sempre um Chevette 79. É feio. Pode ser um feio vermelho, azul, amarelo… um feio burro-quando-foge; um feio com ou sem trio elétrico. Mas é feio. Feio é fim, não é meio; ponto final e não vírgula. Wander Wildner já canta, punk-brega e alcoolizado, que queria ser bonito, mas não consegue. É insensato. O máximo que se pode conseguir com algo feio é deixá-lo feio e espalhafatoso – o que, convenhamos, piora as coisas. São as atitudes drásticas. Pintar seu Chevette 79 de cor-de-rosa, por exemplo. Pronto: agora você que odiava ser feio continua feio – e ainda por cima não pode mais passar despercebido.

Mas não é só isso (nunca é só isso, oras). É preciso admitir a feiúra com convicção, e para isso é preciso transcender, exercitar os defeitos. Não só os defeitos físicos (um lóbulo da orelha maior que o outro, os mindinhos tortos das mãos), mas todos os defeitos. É preciso admitir ser fumante incurável, admitir o eterno mau humor matinal, gabar-se da própria falta de sofisticação… é preciso admitir que você marca os livros com suas respectivas orelhas (as deles, não as suas, leitor estúpido!) e, na falta delas, dobrando as páginas mesmo; ser feio convicto é não ter vergonha das orelhas-de-burro. É ter algumas virtudes (muitas, talvez), mas fazer questão mesmo de exercitar seus defeitos. Ouvi isso em algum lugar: as pessoas gostam umas das outras por suas qualidades, mas só amam umas às outras por seus defeitos. A virtude é genérica (é esteticamente resolvida, não estimula investigação), o defeito é singular, único.

E, no mais, se não fôssemos nós, os feios, como é que os pobres de espírito iriam admirar a beleza? Uma coisa não existe sem a outra. Pensar e catalogar (inclusive de belo ou feio) é abstrair, e o cérebro humano é incapaz de abstrair sem parâmetros de comparação. Os belos têm uma dívida para conosco. Assim, por si só, nossa fealdade é, para dizer o mínimo, perdoada. Fujamos das academias, das clínicas estéticas; admiremos nossa feiúra ao espelho. O mundo nos deve essa.

Os céus de Curitiba

Filed under: crônicas — Sandoval Matheus @ 7:45 pm
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A primeira coisa que você aprende quando chega em Curitiba é que guarda-chuva tem aqui função diferente da do resto do mundo. Lá longe, muito longe, no resto do mundo, eles servem para proteger corpos passíveis de pneumonia contra precipitações pluviais; aqui, são mais como amuletos, cuja utilidade é basicamente espantar a chuva – xô!, xô! Repare: se você não levar o guarda-chuva, choverá – e choverá desgraçadamente, uma tormenta decidida a inundar o mundo, o céu a rasgar-se numa hemorragia incontrolável –; se levá-lo, fará um sol de rachar cabeça de calango, só para obrigá-lo a constranger-se o dia todo, carregando a tralha de um lado a outro, enquanto o sol espraia-se, satisfeito, no firmamento.

Às vezes penso mesmo que os céus curitibanos têm algo contra mim. Basta que coloque o nariz fora da porta para que nuvens até então escondidas, à espreita, passem a surgir nas alturas, o céu tinga-se de matizes de cinza que evoluem para um negrume assustador e, zás!, água que deus manda. Já temi ser abocanhado por um tubarão no cruzamento da Tibagi com a Visconde, onde notoriamente andamos a precisar de um sistema de drenagem – ou de um porto –; certa vez cheguei mesmo a ver uma barbatana a insinuar-se no lado de lá da calçada. Em outra ocasião, pensei ter flagrado um cardume de tilápias à esperar que o sinal abrisse; pena não estar devidamente equipado para uma pescaria.

Até não seria tão ruim não fosse o motorista curitibano. Em verdade, vos digo: jamais existirá no mundo algo mais cretino do que o motorista curitibano. Não bastasse a dificuldade congênita que eles têm com a seta – já cheguei a explicar a um sujeito, em meio a rua e meio aos berros, que aquela varetinha ao lado do volante tinha uma finalidade específica, e não era a de coçar as costas -, ainda sentem um prazer sádico em, na primeira oportunidade, molhar-lhe até os ossos. Gostam mesmo de cruzar totalmente amalucados pelas poças d’água – verdadeiros riachos – deixadas pela chuva e lançar nas calçadas gigantescas ondas de mar em tempestade – enquanto o pobre do pedestre fica lá, bestando, meio que avaliando se o melhor seria mergulhar ou surfar aquela massa d’água.

Mas tem mais – sempre tem mais, este mundo nunca se cansa de nos chatear. Com essa chuvarada, esse aguaceiro que nos mandam, tudo fica mais difícil. Nem ao menos nos é permitido fumar um cigarrinho em paz, enquanto se anda pela rua. Não fosse já suficiente a proibição do fumo em lugares fechados, agora São Pedro também aderiu à campanha anti-tabaco. Estamos encurralados. Fumar na chuva, todo fumante que se preze sabe, é tarefa das mais ingratas, inclusive porque o gosto de fumo molhado é algo insalubre que agarra-se à língua e de lá não sai, de lá ninguém o tira. Talvez possa ser isso um coalizão da caretice convicta com as forças da natureza? Não creio.

Quando era pequeno, minha vó garantia-me que a chuva era o pranto de Deus. Digo agora que Deus anda muito emotivo pro meu gosto. Filho ingrato que sou, vou tirar satisfações. Que tens tu, meu Pai? É a crise financeira? São as crianças famélicas na África? É essa democracia sem povo em que vivemos? É o fato de um partido xenófobo estar no poder na Itália? É a Seleção (sim, se o Senhor for mesmo brasileiro é bem plausível ser a Seleção)? É Bush? É Ratzinger? Bem sabes tu que tenho um rim esquerdo canalha e que este tempo instável em nada me ajuda. É, quem sabe – por que não? –, o Gerald Thomas?

Deus, como sempre, faz-me ouvidos de mercador. Resta-me levar o guarda-chuva, resignado. Ou mudar-me para o sertão de Pernambuco. Sei lá.

janeiro 15, 2009

Melhor não tê-los, mas se os temos…

Filed under: crônicas — Sandoval Matheus @ 8:01 pm
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Viver é estar em constante negociação com o mundo, um eterno dar isso por aquilo, ceder nessa em troca daquela. Os vizinhos, essas pessoas estranhas, esses marcianos de paraquedas que caem sobre nossas cabeças, com seus hábitos alienígenas e espalhafatosos, são a prova cabal disso. Confinados como gado no mesmo prédio, com parcos centímetros de tijolos e argamassa a delimitar nossas baias, esforçamo-nos para não contrariar o vizinho e manter alguma harmonia no ambiente. Sabemos, um vizinho contrariado é capaz de tudo. É um delator em potencial a mais à solta, tudo depende unicamente do acaso; se o síndico cruzar seu caminho estamos ferrados. Por isso, evitamos mugir alto; é pecado mortal. Não farás barulho em demasia – eis o primeiro mandamento da boa convivência em prédios.

Há, claro, exceções. Quando o Corinthians joga, posso subverter as regras. O vizinho do lado também é corintiano. Ele grita de lá, eu respondo daqui. E caso alguém reclame, lutaremos quixotescamente pelo inalienável direito de xingar o juiz, o zagueiro, chamar todo mundo de perna-de-pau, o Mano Menezes de retranqueiro, etc; se alguém reclamar, nós dois, soldados, formaremos uma sólida falange a guerrear pelo direito de ser corintiano. Frente a frente com os algozes, colocaremos a mão direita sobre o lado esquerdo do peito e entoaremos a melodia suprema: “Salve o Corinthians…”. Talvez tenhamos lágrimas nos olhos.

Futebol é paixão nacional, a liturgia é sagrada; futebol é perdoável. Agora reforma, reforma não. Há semanas que ouço um incessante martelar e um perene barulho de serra elétrica no apartamento de cima. O martelo cruza a argamassa e cai direto em minha cabeça. Penso em processar o martelo por invasão de domicílio, o vizinho por cumplicidade. O vizinho, esse ser estranho que jamais vi e que existe apenas na minha imaginação, cruzou a linha-limite, invadiu meu espaço. Exige minha paciência e não me dá nada em troca. Imagino o vizinho como um homem de meia-idade, de bigodes negros e ar institucional, o tipo de sujeito que casaria perfeitamente com o mobiliário de uma repartição pública. Submeto-o, em pensamento, às mais dolorosas torturas; arranco seus bigodes. Tenho impulsos de subir o lance de escadas que nos separa e estrangulá-lo – e com certeza o faria, caso nosso Código Penal não fosse bastante específico no que tange estrangulamentos.

Por isso, decido apenas sair para comprar café. Esbarro na escada com outra vizinha, uma velhinha que ficou muito minha amiga depois que ajudei-a a resolver alguns problemas relativos a como manter o celular ligado.

- Reforma demorada, não? – digo, em substituição ao boa-tarde, enquanto um martelo imaginário crava mais um prego em meu crânio.

- Veja só, meu filho. Acho que vou ter que falar com a zeladora…

Pronto. A vizinha joga no meu time, o processo de cooptação já está em marcha – em breve, será a revolução! Melhor que isso, só se ela também for corintiana.

janeiro 13, 2009

A pé – e sem fé

Filed under: crônicas — Sandoval Matheus @ 7:51 pm
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Raramente ando de ônibus. Passagem de ônibus está pela hora da morte por estas bandas. Também não ando de carro, posto que não possuo um veículo automotor – estes sim, cada vez mais baratos, a preços de banana (muitas bananas, é verdade), proliferando-se como coelhos e entulhando ruas, avenidas, travessas e, por que não?, calçadas. Prefiro a boa e velha marcha, caminhada, a boa e velha gastação de tênis. Não por motivos salutares, mas pelo que me toca no financeiro. Assim, raramente pego um ônibus. Dirijo-me andando até o banco, a loja, o mercado e o botequim de minha preferência. Coloco o pisante, estendo o braço magro para fora da janela (a fim de me certificar de que os céus de Curitiba não estão me aprontando outra das suas) e ponho-me em marcha. Meio desengonçadamente, é fato, como sempre foi.
Nada de ônibus, pois, que o orçamento é apertado e a crise mundial (que não me deixa mentir) não está pra brincadeira.
Nada colabora, na verdade, para que eu aprecie os ônibus. Nem ao menos de fora, com suas propagandas da administração municipal tascadas em seus traseiros vermelhos, serpenteando – também bastante atrapalhadamente – pelas vias expressas da cidade. Em Londres, sim, há propagandas bacanas sapecadas nos ônibus, que também são vermelhos (que só quem gosta de transporte coletivo, ao que parece, é comunista). Mas em Londres, sim, dizia eu, há propagandas de alguma serventia nos ônibus. Estão lá, em letras grandes e gorduchas: “Provavelmente Deus não existe. Portanto, pare de se preocupar e goze a vida”. Taí uma coisa sensata: provavelmente Deus não existe. Mas gozar a vida? Gozar o quê, excelentíssimo? Cá neste vale de lágrimas a coisa anda preta. Por acaso o senhor não lê os jornais. Não?! Pois sim, faz bem, não estou criticando. Mas garanto-lhe que, quem sabe lá pros lados de Londres haja algo para se gozar – por aqui, no entanto, recomendo um pouco de parcimônia.
Indiferente ao meu azedume em relação ao mundo, no entanto, continua lá a mensagem ateia, a zanzar pelas ruas de Londres, gozando o que há para gozar entre os londrinos. A campanha se intitula Ateístas em Ônibus e colocou inicialmente oitocentos anúncios – ou pelo menos é o que me informam cá os jornais, sempre mal e porcamente, como é do feitio deles.
A ideia (sem acento, embora meu corretor ortográfico insista em me contrariar) migrou – como migram todas as ideias, mesmo as tolas, o que não é o caso – para os Estados Unidos, mais especificamente para Washington, onde pode-se ler em outros duzentos ônibus: “Por que acreditar num deus? Basta ser bom, em favor da bondade”. O anúncio da Associação Humanista Americana, é claro, não passou incólume, como nada passa incólume entre os americanos – com a possível exceção da Era Bush. Chiaram, é certo. Quem chiou? Pois todos chiaram. Foi “um clamor público”, conforme definição de artigo na internet. E sabemos que a voz do povo é a voz de Deus. Ou, no caso presente, a voz do Centro de Desenvolvimento Familiar. De caixinha de coleta em punho, lá foi o Centro (não sei se de ônibus ou não, as matérias nada dizem a respeito) angariar fundos para tascar em duzentos outros ônibus: “Por que acreditar? Porque Eu te criei e Eu te amo, em favor da bondade – DEUS”. E eu, que ia pronto a tecer críticas ao Centro de Desenvolvimento Familiar, vejo-me encurralado. Ao que tudo indica, é o próprio Deus que assina a mensagem, com caligrafia impecável. Deixo, pois, de lado as críticas, que não sou bobo.
E é este o pé (ou os eixos) em que as coisas estão atualmente. Que me importa isso? Não sei. Que temos nós, abaixo dos trópicos e da linha da miséria, a ver com toda esse alarde? Tão pouco sei. Tudo que sei é o que eu queria dizer. E eu só queria dizer que provavelmente Deus não existe. O resto é encheção de linguiça (e lá se vai o trema), o resto eu retiro. Agora, goze a vida. Ou da vida. E de preferência a pé.

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