troços & destroços

fevereiro 22, 2009

A tempestade – última parte

Filed under: contos — Sandoval Matheus @ 9:39 pm

- Vou tentar explicar-lhe – recomeçou Dr. Gomes. – Deus, meu jovem, Deus é um preciosista. Não dizem que ele escreve certo por linhas tortas? Que espécie de maluco faria isso tendo todo o poder do mundo para começar a coisa toda da maneira correta? Eu não sei o que ele pretende, e nem você, mas sei que por enquanto tudo o que temos são as linhas tortas.

Dr. Gomes fez uma pausa, depois recomeçou:

- Bem, já vi que vou precisar ser mais didático. Sabe, você nem é o único; há tantos! Tantas pessoas correndo atrás de idéias fixas: amor, reconhecimento… e cada vez mais cedo! Permitindo que essas linhas tortas roubem-lhes a juventude, a vida, a seiva. Alguns chamam isso de determinação; eu chamo de loucura. Loucura que transforma milhares em alcoólatras, drogados, depressivos, suicidas, homicidas malucos… e sabe por quê? Porque recusamos nossas limitações, meu jovem; recusamos nossa condição humana. Não fomos educados em navalhas. Não fomos feitos para navalhas. Deus jamais deveria permitir que navalhas ficassem ao alcance de suas crianças; mas ele é cruel. E agora que você se cortou, um corte que rompeu a pele, os músculos, os nervos, um corte que foi até osso… agora você sabe do que realmente é feito. É o fim. Não há o que fazer! Entende? Consegue compreender?

Gregory ficou calado. Inutilmente as palavras esgravinhavam, de gatas, a superfície lisa da garganta, mas não venciam aquele calabouço. Na língua, o gosto de reticências.

Dr. Gomes sorria-lhe, contente, alegre, feliz.

Sim, Gregory compreendia, e compreendia também que sentia vontade de estrangular aquele homem. Na ausência de palavras, as mãos sempre se mostram solícitas, e às vezes é difícil entender por que motivo precisamos considerar a sinceridade uma virtude nas pessoas. Queria esganá-lo. Por que não o fazia? Estava ali, agora, do outro lado da mesa, ao alcance das mãos, uma simples esticadela dos braços e podia já sentir aquela goela entre suas mãos, a pressão dos polegares na garganta alheia. Uma lembrança da infância: a avó – agora a velha ganhara seu lugar naquele passado liquefeito – matava galinhas, torcendo-lhes o pescoço; primeiro um frenético bater de asas, penas que voavam e faziam coçar o nariz do menino alérgico; depois, um espasmo ou outro, cada vez mais raros, até que a ave morta aquietava-se por completo, o pescoço débil pendendo para um lado, o bico entreaberto, a crista caída, inútil. Seria exatamente igual: primeiro Dr. Gomes se debateria como um louco, os olhos esbugalhados de pânico; depois se resignaria, a pressão das mãos cada vez mais forte na garganta; os espasmos seriam esporádicos, até que fosse completamente abatido, a língua a dependurar-se na boca como o pêndulo de um relógio antigo. E quem sabe um sacrifício pudesse agradar ao psicopatológico Deus do Velho Testamento, que ao fim ou início das contas, é o mesmo Deus, ainda com seus instintos mais perversos e primais – os instintos, esses jamais nos abandonam, apenas são velados pela manta da civilidade; e se fomos feitos à imagem e semelhança Dele não há motivos para crer que seja diferente com a Divindade.

Mas não o fez, porque nesse momento os rins deram-lhe uma pontada terrível, o que o lembrou de como estava fraco e frágil, de saúde rala e forças minguadas. Na mesa de Dr. Gomes, um telefone tocou:

- Sim! – atendeu ele, animado. – Pois não, pois não. Faça-o entrar… em cinco minutos! – alertou ele, antes desligar. – E agora, meu jovem, você precisa ir.

- Para onde? – balbuciou ele. A idéia do estrangulamento sumira-se; ficara apenas o pedido de socorro.

- Ora, meu jovem! Para a chuva! Ela estará lá, ela estará lá. Já lhe disse: não há nada a ser feito! Nada!

Estendeu a Gregory o grande guarda-chuva.

- Leve, leve. Será útil.

À porta, Gregory cruzou com um rapaz terrivelmente encharcado, um rosto contorcido em angústia. O elevador tratou-o como da primeira vez, indiferente; engoliu-o e cuspiu-o, como se fosse algo de gosto terrificantemente amargo. Na rua, como era de se esperar, a tempestade cumpria à risca sua deontologia: sem preocupações, caía; o mundo não era com ela. Ele não abriu o guarda-chuva – não valia a pena –, apenas apoiou-se nele, esgotado. Do outro lado, na calçada, um mendigo espreguiçava-se, sob as águas, satisfeito; parecia lagartear ao sol, talvez após banquetear-se com um almoço como igual não via há tempos. Gregory olhou-o demoradamente, e depois esquadrinhou o céu, à procura daquela luz. Uma descarga elétrica cruzou-o, como a língua de uma gigantesca serpente mitológica. E indestrutível.

(Fim.)

fevereiro 14, 2009

A tempestade – parte V

Filed under: contos — Sandoval Matheus @ 3:49 pm
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Clara quase não mais se levantava. Tremores sacudiam-lhe o corpo todo, ardia em febre. Foi teimosa como o são todas as mulheres em estado semelhante, donas de um orgulho feminino brutal, talvez um resquício da época em que não passávamos de tribos, matriarcados; recusou-se a receber o médico. Continuou com suas aspirinas e suas efusões, na medida em que, trôpega, cambaleante, aos olhos alheios dele, ainda conseguia prepará-las. Pouco a pouco, uma tosse rouca de fumante inveterado tomou conta dela, apesar de jamais ter colocado um único cigarro na boca. O resfriado havia se transubstanciado em uma pneumonia fulminante que em poucos dias a levou a pique.

A última coisa de que Gregory se lembrava era o funeral, um cortejo que aconteceu sob uma chuva insistente tal qual mandam as convenções cinematográficas. Lembrava-se da visão do negro-corvo do luto distorcida pelo sal das lágrimas; lembrava-se de ter mendigado, então, um único naco de sol que fosse; lembrava-se de odiar a si mesmo por ter matado Clara; lembrava-se, e isso era impressionantemente nítido, ao contrário do resto das memórias, de ter decidido voltar ao apartamento, pronto a descrever aquele enterro e pôr um ponto final em tudo aquilo; lembrava-se, no entanto, de ter encontrado tudo interditado por faixas de contenção, a área toda cercada por bombeiros, policiais, curiosos de guarda-chuvas. A terra havia repentinamente cedido às águas, o prédio viera abaixo, tudo se perdera – os manuscritos, a máquina, Clara. E da fogueira onde o sapo havia sido queimado agora a chuva levava as cinzas, que escoava por entre seus dedos junto com a obra. Ficaram apenas a tempestade e os rins que doíam.

Depois disso? Depois disso fora só o tempo, inexorável. Quanto dele havia se passado? Quantos anos tinha? Talvez soubesse, se todos os documentos não tivessem acabado por levar o mesmo fim das páginas que havia datilografado. Agora, no líquido silêncio que se seguiu, Gregory tinha os olhos marejados.
Jamais estiou – garantiu ele em uma voz fraca, o apito de um navio a sumir ao longe.

Clara – disse Dr. Gomes. – Clara. Não é irônico? Clara. E esse seu céu sempre escuro. A vida e essas dela. A vida tem dessas.

Isso lá eram horas?, pensou Gregory, irritando-se. Ele, como uma criança que volta da escola e encontra a casa vazia, e o homem vinha com essa? O advogado como que lhe adivinhou o pensamento, apanhando-o no ar.

Não percebe? – perguntou. – Não percebe? Como pretende que eu faça algo? Não há o que fazer, meu jovem. Não há, definitivamente. Há pessoas que já nascem… já nascem… Como vou dizer?… Com isso, essa ânsia por perseguir a desgraça. Você não pode negar, você perseguiu a desgraça, acossou-a, não lhe deu sossego! Como uma criança, você escalou a estante e finalmente apanhou o brinquedo que tanto queria; mas era uma navalha; e então… então… você se cortou! Vamos, vamos, tire essa camisa encharcada! Devem estar aí, em algum lugar… – Dr. Gomes saltava ao redor de Gregory, como a procurar uma marca. Ele empurrou-o para longe. – Bem, bem, não vem ao caso. Estão aí, eu sei. As marcas, os talhos.

Dr. Gomes era como um louco, um interno de um manicômio, alegre como uma criança quando finalmente prova sua tese maluca anteriormente insondável. Ele acendeu um cigarro e ficou baforando de um lado a outro; uma fumacinha azul saía do bastãozinho de fumo, dançando no ar, retorcendo-se, uma serpente volátil, etérea, uma serpente que começa a desintegrar-se em um sonho. Ele estava elétrico; estendeu o braço esquerdo e posicionou o direito como a agarrar uma cintura; rodopiou quatro vezes, como que dançando com uma mulher onírica; parou e fez uma mesura a Gregory.

Vê? Vê? Não é claro como… como água? – continuou Dr. Gomes, rindo espalhafatosamente. – Claro como água. A sabedoria popular às vezes tem a crueldade da inocência, não é mesmo?

Gregory abriu a boca para dizer algo, mas as palavras deslizaram-lhe goela abaixo, como se tivessem escorregado na metade da escalada. Por que estava ali, afinal?

– Não há o que fazer – repetiu Dr. Gomes, um riso agora discreto, mas satisfeito no rosto. – Não há!

Pegou o guarda-chuva que estava a um canto – um grande guarda-chuva – e começou a bater levemente com a ponta de metal na vidraça da janela de onde se via a cidade. Era como se estivesse a transmitir um código. A cara era pensativa, mas satisfeita, o semblante de alguém que repassa o raciocínio apenas para deleitar-se novamente com a própria epifania.

– Não há. Não há – repetia.

Lá fora, no horizonte, um raio desceu dos céus até a terra como uma tripa fluorescente; instantes depois o estrondo do trovão assomou a sala. Fez-se silêncio; apenas as batidinhas do metal contra o vidro, regulares.

(Continua.)

janeiro 28, 2009

A tempestade – parte IV

Filed under: contos — Sandoval Matheus @ 3:35 am

Por essa mesma época as infiltrações começaram a aparecer no apartamento inicialmente sólido. Era o sexto mês, e o que até então era um fenômeno climático absurdo, porém aceitável – qualquer absurdo pode se tornar aceitável se insistir um pouco –, talvez a nuvem de uma monção que a certa altura desgarrara-se do rebanho nos céus e perdera-se no caminho para as Índias, passou a ser preocupante; todos, de fato, pensavam que se o carro continuasse a andar como andava, em breve precisariam desenvolver brânquias se quisessem continuar respirando. A Gregory começou a desassossegar o fato de que naquelas condições, com aquela umidade, agora a água a insinuar-se pelo teto e pelas paredes, era impossível manter qualquer coisa seca, principalmente seus papéis. Até a coleção de cartas de recusa de seus contos ia então se perdendo, junto com a pilha de páginas datilografadas ao lado da máquina; primeiro a tinta começava a borrar-se no papel, até que as letras e linhas começavam a juntar-se numa única mancha escura, indecifrável; depois, o papel começava a desintegrar-se, como que mastigado, até que uma folha colava-se a outra transformando noites e noites de trabalho numa única e suja massa de celulose. O papel, por um nada que fosse, teimava em rasgar-se. O mundo alimentava-se da obra, um animal a lançar sobre a presa hectolitros de suco gástrico para depois, calmamente, extrair do bolo alimentar as forças de que necessitava para continuar sua saga. Isso passou a atarantá-lo, o que piorou quando os rins, diante de tanta água, começaram a doer ferozmente, rosnando alto como leões cercados pelas chamas, atrapalhando a escrupulosa e complicada tarefa de escrever dispondo de papel naquelas condições. O apartamento começara a ser tomado pelo mofo, pelo musgo e por um perene ar bafiento e denso que, hoje ou amanhã, começaria a se deixar apanhar com as mãos. As desgraças falavam através da boca de Clara, que ainda ocupava-se, ao menos um pouco, com o mundo. Ela assinalava as notícias, os bairros alagados cada vez em maior número, as doenças que se proliferavam, a Defesa Civil que interditava cada vez mais casas e, logo, logo, quem podia garantir que não fosse a deles? Clara alardeava o tempo que chovia, o tempo, o dos relógios, que passava numa piscadela dos olhos, e embaralhava-se com o tempo que ia além da vidraça, ambos, relógio e tormenta fluindo em uma correnteza impossível de deter, veja só, já há dois anos que tudo o que se faz é chover, e nem sinal de que algum dia vá parar.

Dois anos. Dois anos e ele sentado à escrivaninha, com suas fábulas, a sobreviver sabe-se lá como. Como estavam sobrevivendo? O que comiam? Isso ele não lembrava, a memória disso havia sumido depois da curva daquele rio de memórias, como uma pedra de gelo atirada à enxurrada.

Dois anos – ele repetiu, enquanto Dr. Gomes andava, lentamente, como que para não atrapalhar o fluxo da história, de um lado a outro, um ar de interesse na face. Estaria o achando maluco?

-  O tempo, meu jovem – disse Dr. Gomes por fim. – Nessas horas não parecem estúpidos esses relógios? Digo, sempre a dividir o tempo, abstrato, intangível e arisco, em unidades homogêneas, segundos, minutos, horas, dias, meses, anos… nossa esperança tola de manter sobre o tempo algum controle para que não fiquemos assim, à mercê de que a vida nos caia no colo dia ou outro como uma bomba. E mesmo assim, de repente… bem, continue, continue. Por favor, continue. Interessantíssimo o que você conta.

Estava com um ar meio lunático, o Dr. Gomes. Mas…

Em algum momento, Clara caiu de cama. Começou com um forte resfriado, uma indisposição tenaz dia a dia, uma febre que foi lhe incinerando as forças e que ela ia combatendo, como podia, com as efusões que aprendera com a avó camponesa e com uma ou outra aspirina. Gregory notou que ela estava mais pálida, mas não deu importância – quem não ficara mais pálido debaixo daquela tormenta? E a coriza, bem, a coriza não é nenhuma enfermidade gravíssima, as crianças vivem com o nariz escorrendo e nem por isso deixam de espichar, fortes, com uma saúde de ferro, como se tivessem os pés plantados em terra abundantemente adubada. Não dedicou à Clara mais do que algumas perguntas esparsas sobre como se sentia naquela manhã, naquela tarde, naquela noite, ou seja lá a que altura das vinte e quatro horas do dia havia atentado para sua existência. Ocupava-se, sim, de sua história; era um gato perdido entre uma miríade de novelos de lã, talvez os mesmos novelos que as Moiras já utilizaram para fiar o destino de tudo e todos.

E então as garras do felino, a certa altura, cortaram um fio errado.

(Continua.)

janeiro 27, 2009

A tempestade – parte III

Filed under: contos — Sandoval Matheus @ 1:23 am

Chovia há um mês quando chegou à trigésima página. As gotas agora viviam a tamborilar na vidraça. Ele, porém, quase não atentava para o tempo, fosse o lá de fora ou o dos relógios. Por alto, como se não fosse com ele, como se aquilo fosse apenas o retalho de uma idéia perdida a flutuar, ouvia Clara reclamar, impossível viver assim, dessa maneira, veja, nem ao menos as roupas secam no varal, se soubesse antes que aqui iríamos viver como peixes… mas Gregory vibrava em uma outra freqüência, tinha outras coisas com que se preocupar; o que fazer com aqueles meninos que mataram o sapo, por exemplo? Precisava transformá-los em algo. Jornalistas bêbados? Vagabundos? Advogados corruptos? Professores? Dentistas? E também havia a chuva. Com tanta água que Deus mandava as pessoas já deveriam estar mudando seus hábitos. Nuances e mais nuances a serem trabalhadas, um mundo de detalhes a correr em todas as direções possíveis e impossíveis. Ficava lá, dia após dia, às vezes horas seguidas, expectante diante da máquina. Sabia que de nada adiantava sair correndo desesperadamente, como um louco, atrás das palavras; era preciso esperar que elas passassem para apanhá-las. Haveria dias nos quais nenhuma resolveria sair da toca; haveria dias em que elas viriam como em uma enxurrada, em um número grande demais para que apenas duas mãos pudessem dar conta; e então viria a angústia, um desespero por não conseguir apanhar todas ao mesmo tempo, um amaldiçoar aos dedos, lerdos demais. Mas não existia outro método. Como na vida, pensava. Não é sensato ficar correndo atrás dela; de uma forma ou outra, mais ou menos asseada, ela está sempre por aí, pontualmente. O melhor, o que lhe parecia mais correto, era esperar, deixar ambas, vida e obra, fazerem o que achavam que devia ser feito, e só então, vez ou outra, verificar o que haviam deixado à janela.

Mesmo assim, mesmo com essa consciência, às vezes, em seu íntimo, acreditava ser incapaz de levar aquilo adiante; mas era teimoso, como já foi dito, uma mula a fincar os cascos na terra, resoluta a jamais abandonar aquele sítio, faça chuva ou sol, mandem os céus fogo ou canivetes, nem que da sua transigência dependesse a continuidade do mundo tal qual o conhecemos. À noite, marchava de um lado a outro do apartamento minúsculo, amaldiçoando a vida, Deus, o Diabo, reprovando a si mesmo, incapaz de continuar, os dedos hesitantes sobre o teclado. Apenas o agora indefectível barulho da chuva sussurrava-lhe que, ao menos por ora, nem tudo estava perdido; enquanto ela caísse a história provava estar sustentando-se, ficando em pé.

Com os olhos, Gregory procurou Dr. Gomes naquela sala ampla. Viu-o de costas, olhando a cidade através da grande janela, os prédios além de uma cortina d’água. Lá embaixo, sob o negrume do céu, as luzes de freio dos automóveis engarrafados brilhavam, dando a impressão de que as vias haviam se transformado numa sangria desatada, numa hemorragia incontrolável. Sem se virar, ele fez um gesto que dizia a Gregory que continuasse.

Bem, ele decidiu que os guarda-chuvas deveriam inflacionar. Gregory deu de ombros, e sorriu; um sorriso de desespero, reconheceria Dr. Gomes, se o estivesse vendo – os sorrisos, aqueles quase abafados, e também por vezes as gargalhadas, tornam-se chancelas para identificar os desesperados. À época, ele não sabia mais o que fazer. Raciocinou então que mesmo em uma tempestade que durava anos, sem trégua, sempre haverá aqueles distraídos irremediáveis que passam a vida esquecendo-se dos guarda-chuvas. Daí que os vendedores desses eternos renegados passaram a vendê-los a preço de ouro. A oferta e a procura, sejamos francos, é mais que uma lei, porque leis são o fruto de legislações que variam de acordo com o humor dos legisladores; a oferta e a procura é uma verdade científica, e de verdades científicas não há argumentos, humores ou exércitos que dêem cabo. No mais, era também uma saída para pelo menos dois dos pueris assassinos de sapos, que ele havia decidido que seriam acossados por toda a vida por um insistente e intratável fracasso. Juntou os dois às hordas de desocupados que, em sua história, passaram a anunciar guarda-chuvas a cada três passos, com preços instáveis que variavam de acordo com os decibéis das trovoadas. Daí a oferta e a procura – acima disso, o destino patológico de ambos –, ele decidiu, mais uma vez mostrariam que não estavam ali para brincadeira, que cumpriam seus deveres diligentemente, e fariam o grande negócio degringolar, se transformar em negócio de fome, tanta gente dedicada ao ofício, portanto tudo vendido a preço de banana. Talvez ainda matasse por inanição aqueles dois vagabundos…

Na obra e fora dela, a tempestade fitava-o. O que fará comigo? – perguntava. Uma máscara de corrupção cosia-se à face dos céus e Gregory lhe sorria de volta, ambos cúmplices naquela travessura ingênua e mesmo assim perversa, aquela traquinagem de matar sapos.

(Continua.)

janeiro 21, 2009

A tempestade – parte II

Filed under: contos — Sandoval Matheus @ 5:43 am
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Ele não sabia, e não tinha margem de manobra. Era difícil até lembrar-se exatamente de quando havia começado, a memória falhava; não seria exagero dizer que seu cérebro já ficava aguado. O passado era tão claro quanto a noite divisada através de uma janela embaçada. Apenas moveu os lábios.

Ele tinha tudo para dar errado – a teimosia, a insubordinação, o sangue quente de camponês, a indisciplina, a falta de apego a todos –; antes de mais nada, ele tinha uma idéia fixa: fazer chover. Gregory era escritor – ou pelo menos acreditava ser, por mais que as cartas de recusa de editoras que se amontoavam nas gavetas insistissem em desmentir o fato –, e escritores são lobos solitários, almas desgarradas, amplos descampados abertos e desabitados onde a vida pode desenvolver, sem ser chateada por intromissões alheias, suas empreitadas mais despropositadas, seus rompantes mais extraordinários. Clara jamais reclamou. Os homens são assim mesmo, pensava ela – ainda mais os jovens, ainda mais os escritores –, acreditam ser capazes de tudo. E foi por causa disso, daquela idéia idiota e da falta de alguém com suficiente sapiência para arrancá-la do espírito de Gregory, que se mudaram, depois de casados, para a capital. Afinal, não se faz chover de uma hora para outra; são precisos recursos, alguns dos quais só se encontram nas cidades grandes. Principalmente, precisa-se de paz, um lugar onde as pessoas não fiquem a nos importunar com os deveres domésticos, com os deveres profissionais, com os deveres sociais; um lugar onde o mundo não nos encontre e não vá diariamente bater à porta, escalar nossa cama e nos sacudir até que despertemos, como costuma fazer, calhordamente, manhã após manhã. Poderia ser uma cabana em meio ao mato, mas Gregory concluiu, após a reflexão ter destilado as alternativas, que era mais fácil esconder-se em meio às pessoas do que em meio às arvores. Lá, embrenhado na mata, existe sempre algum sertanista, algum biólogo ou algum aventureiro disposto a esquadrinhar cada metro de floresta e daí, bem, daí mais dia menos dia, provavelmente menos dia, aqueles obstinados homens colocariam tudo a perder.

Ele e Clara instalaram-se em um pequeno apartamento de aluguel, no centro da cidade, e Gregory posicionou sua máquina de escrever – não havia dinheiro para um computador – no melhor lugar da casa, de frente para uma janela. Afinal de contas, era lá que trabalharia pelos próximos seis meses, talvez um ano, talvez mais; e Clara também não perdia grande coisa, a vista não era das melhores, alguns prédios insossos, passantes sempre apressados, nervosos carros a buzinar quando algum motorista mais distraído demorava a arrancar no sinal – ou os ansiosos que mantinham o pé no acelerador, fazendo os automóveis rugirem mesmo quando o semáforo indicava o vermelho, como se estivessem ganhando impulso para, enfim em movimento, galgarem quilômetros e quilômetros em instantes.

Antes de começar, Gregory passou dias com um olhar meio abobalhado, vislumbrando cenas como essa por aquela janela, ruminando histórias, escrevendo e reescrevendo mentalmente trechos inteiros, não raro presa de uma angústia capital. Precisava de um início forte ou não daria certo, disso sabia, e o teria – disso também sabia –, mais cedo ou mais tarde. Como no trânsito, era preciso paciência, ter a consciência de que sinais não podem ficar fechados para todo o sempre. Passara-se uma semana quando, em uma manhã pálida que escorria lentamente – como se estivessem a coar um líquido espesso, quase lácteo, por uma peneira de crivos demasiado fechados – o semáforo, enfim, abriu. Os carros arrancaram, sempre buzinando – até parece que as buzinas foram inventadas hoje e todos estão testando-as para ver se aquelas novas maravilhas funcionam mesmo, pensou –, indo sabe-se lá para onde estivessem indo. Gregory sentou-se à máquina.

Tratou de resolver o primeiro problema logo e matou o sapo nos dois primeiros parágrafos. Os dedos, resolvidos, dançavam sobre as teclas duras e desconfortáveis da máquina. Um sapo ardia em uma fogueira, saltava em desespero, as labaredas como laços a caçá-lo. Tentava a todo custo livrar-se do fogo, mas era sempre empurrado novamente às chamas por um grupo de meninos que acompanhava animadamente o holocausto. Releu o trecho e decidiu que gostava dele. Era um bom começo, apesar de Gregory ainda não saber aonde aquelas linhas iniciais o levariam; aprendera que era inútil imaginar o todo de uma história antes de começar a registrá-la no papel. Os dedos, talvez por estarem em maior número, e já que a união faz a força, são rebeldes que só e, insolentes, insistem perenemente em desafiar os comandos do cérebro; por isso a narrativa se encaminha para onde eles bem entendem, para onde Deus quer e o Diabo assim permite. Pensava nisso quando um primeiro e gordo pingo de chuva estatelou-se contra a vidraça à sua frente; depois outro, e outro, e outro, cada vez mais numerosos e em intervalos cada vez mais reduzidos até que se transformaram num instantâneo e poderoso aguaceiro de verão.

Que nunca mais parou.

(Continua)

janeiro 16, 2009

Uma melodia de sangue

Filed under: contos — Sandoval Matheus @ 7:59 pm
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E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia de perto; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte do mundo, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra.
Apocalipse, 6;7-8

O violão soava como um lamento, um murmúrio dolorido de desassossego. Pelo ar parado, o som perambulava, triste, lânguido, fraco de vontade. Dona Lúcia cruzou a mercearia arrastando os chinelos, e serviu mais uma rodada de cachaça aos que jogavam caxeta nos fundos, ocultos na frouxidão da penumbra. Os sinos da igreja a repicar anunciavam as seis horas, e ela pensou que em breve o lugar estaria cheio, os homens que encerravam o trabalho na olaria ao lado acomodariam-se nas mesas ou no balcão e beberiam cachaça e cerveja, à espera de que ambas lhes viajassem pelos músculos e trouxessem algum alento ao corpo fatigado. Estacou em frente ao velho, para pedir se ele desejava algo. Por de trás do bigode grisalho alourado pelo fumo, ele sorriu, revelando um dente de ouro e recusando a garrafa que Dona Lúcia trazia nas mãos. Indicou o copo que há uma hora jazia a seu lado, ainda pela metade. Então, fez apenas baixar a cabeça e voltar a cutucar o violão, as cordas a vibrar numa melancolia torturante.

No fim de tarde melífluo, o tempo tornara-se uma dimensão grevista, e recusava sua obrigação primeira, o ofício de simplesmente passar. Nem ao menos as copas das árvores estavam dispostas a incomodar-se; na falta de brisa, eram frondosas estátuas sob o sol que agora mirava o ocaso, e lançavam compridas sombras que cobriam de um lado a outro a rua de chão batido. Dona Lúcia apoiou os cotovelos sobre o balcão e ficou a ouvir o velho. A melancolia do violão era tanta que ela sentiu por ele um afeto triste. Dona Lúcia reconhecia, embora não tivesse consciência disso, a dignidade da tristeza, que é diferente da aflição, posto que não reivindica amparo. A tristeza, sim, reconhecia seu valor, o valor desse incurável amor por algo que já não nos pode dispensar o mesmo apego; a tristeza perpétua, resignada, que não exige coisa alguma, apenas não ser molestada – sim, ela era digna. Um modesto sorriso tangeu-lhe o rosto. Reparou, então, que a fronte do violão estava cravejada de bijuterias a formar um nome – Joaquim.

“Joaquim?”, disse a meia-voz, como que a perguntar àquele forasteiro se era assim que deveria chamá-lo.

O velho entendeu tudo de súbito, mas não deu-se ao trabalho de levantar os olhos para responder. Com o rosto escondido pela aba do chapéu, falou com a voz calma e rouca, uma voz sem pressa ou direção, como se estivesse na verdade a falar para si mesmo:

“Não… era de meu filho…”

Era como se quem estivesse a falar fosse o violão. A voz mansa e triste entrou cautelosa pelos ouvidos de Dona Lúcia e, parecendo já conhecer o caminho, foi direto sussurrar-lhe ao coração. Era o falar terno de uma assombração que não metia medo.

“E o que é feito dele?”, tornou a querer saber dona Lúcia.

“Morreu de tiro… atiraram nele.”

Não havia raiva ou rancor – apenas uma tristeza árida. Dona Lúcia pensou entender: o velho viera à procura de paz, fugido do passado; o passado – poderia ter pensado ela – esse tempo que se recusa a aceitar a idade avançada e, portanto, faz-se sempre presente.

“Nunca vi o senhor por estas bandas. Foi por isso que veio pra cá?”

“Sim. Cheguei ontem”, respondeu o velho, o violão lamentoso apoiado sobre as pernas cruzadas.

“Deve ser duro, perder um filho assim”, assentiu dona Lúcia. “Faz tempo que sucedeu?”

“Um ano.”

“A gente se acostuma. Eu também perdi uma filha, há quatro anos. Não foi de tiro, mas perdi. Os vivos precisam continuar levando.”

O velho não respondeu, e dona Lúcia achou por bem deixá-lo em paz com seu pranto seco, um pranto cujas lágrimas eram notas tristes, comedidas, expelidas por um violão. Saiu do balcão e foi atender aos trabalhadores que agora já começavam a encher a mercearia. Mais mesas de jogo passavam a se formar. Os homens pareciam taciturnos, traziam o sobrolho carregado por um estranho pressentimento, como se aquela melodia de desespero medido que o velho tocava estivesse a trazer algo, um mau agouro, uma desgraça da qual lhes seria impossível escapar. Maneca, um jovem robusto de cabelos de fogo cortados à moda militar e olhos azuis severos, irritou-se:

“Ei, velho, é sexta-feira! Há alguma maneira de fazê-lo parar?”

O velho nada disse. Apenas levantou-se calmamente, deixou de lado o violão e começou a dirigir-se para mesa de Maneca, o meio copo de cachaça em uma das mãos, passos lentos mas jamais vacilantes. Era realmente velho, e a camisa aberta até a metade mostrava um peito ossudo. No rosto, as rugas e marcas do tempo haviam se acentuado ao ponto de se transformarem em vincos profundos, pregas. Uma papada seca pendia-lhe da garganta, como se não pertencesse a ele, como se tivesse sido fundida à goela. Sim, era realmente velho, franzino, mas o andar decidido e resoluto mostrava que havia algo mais naquele pequeno feixe de ossos, músculos e nervos.

“Há um lugar para mim na caxeta de vocês?”, perguntou ele, ao alcançar a mesa.

“Quer jogar com a gente, senhor?”, respondeu perguntando, cortesmente, um homem moreno, forte como um touro.

“Bem, creio que um jogador a mais não lhes fará mal, fará?”, rebateu o velho.

“Aqui, nós jogamos a sério, vovô”, advertiu Maneca.

“Compreendo”, disse o velho. “Não tencionava brincar mesmo.” Puxou uma cadeira e acomodou-se. Bebeu um gole da cachaça, esfregou as mãos e ficou à espera das cartas.
O lusco-fusco instaurava-se. Fora, conforme a escuridão descia, as janelas de casas modestas passavam a iluminar-se dos dois lados da estrada. A luz fraca e cambiante dos postes de iluminação também surgia, tímida, constrangida, quase a pedir desculpas por estar ali e poder fazer tão pouco. O silêncio agora era quebrado pelos pardais, que em alvoroço começavam a instalar-se para pernoitar nas árvores. Dona Lúcia percorreu novamente as mesas da mercearia, servindo mais cachaça. O velho aceitou, mas ao contrário dos outros, que engoliram tudo de um trago, passou a bebericar o copo.

“Acho que estou velho demais para vocês”, comentou, rindo-se.

A caxeta começou, e o velho mostrou-se um jogador desgraçado; não tinha nem mesmo uma mísera idéia do que fazia. Os homens, no entanto, pilharam-no com cautela. Não por filantropia, é sabido, mas por acreditarem que aquele forasteiro poderia render-lhes mais se pudessem mantê-lo disposto para futuros jogos.

“O senhor vem da onde?”, quis saber a certa altura

Maneca, que despontava como líder do grupo.

“Mato Grosso”, disse o velho.

“Lá é terra de dinheiro. Terra que tá começando agora. Veio fazer o que no interior do Paraná, neste fim-de-mundo? Olha que esse lugar aqui não dá mais nada, hein?”

“Estou velho demais para dinheiro”, explicou o velho. “Na minha idade… vim para um lugar onde possa morrer em paz.”

“De fato”, disse um homem louro e precocemente calvo, um alemão de pele avermelhada. “E se há um lugar onde há paz para se morrer, é aqui”. Riu do próprio comentário, no que foi acompanhado por alguns, mas não pelo velho.

“Mas o que é que causa tanto barulho em Mato Grosso?”, perguntou Maneca, jogando o dinheiro daquela rodada sobre a mesa.

O velho apertou um cigarro de palha entre os dentes e acompanhou-o, também jogando na mesa uma amassada e encardida nota de dinheiro. Resmungou:

“Aquilo lá é terra de malvadeza, terra de pistoleiro. Vira-e-mexe matam um.”

Maneca concordou com um leve aceno de cabeça. Pareceu perturbado. O lamento do violão dera lugar às conversas nas mesas de jogo, mas a melodia ainda parecia estar lá, camuflada, fazendo das tripas coração para conter um gemido.

“Não sei como pode, um lugar onde se mata um ser vivente assim, sem mais nem menos”, continuou o velho. “Aquilo lá é terra de gente sem coração.”

Acenou para o balcão e pediu mais uma dose de cachaça. O alemão, que estava à sua frente, fez um aceno de cabeça, indicando que havia ‘batido’.

“E o que o senhor faz? Digo, como pretende viver por aqui? Na sua idade, não acho que consiga trabalho na olaria…”

Era Maneca, subitamente muito interessado por aquele homem – sessenta? Talvez setenta anos, calculou.

“Não sei”, respondeu o velho. “Mas não vai ser de baralho.” Sorriu. “Nem por muito tempo.”

Levantou-se da mesa, impassível diante das perdas; apanhou o violão e foi ao balcão. A luz mortiça da mercearia agora engalfinhava-se na porta com a escuridão da noite, defendendo sua jurisdição – aquela, porém, parecia ser uma batalha há muito perdida. O violão recomeçou seu murmúrio lamentoso.

A mesa de jogo de Maneca se desfez. Os homens chegaram junto ao balcão, próximos ao velho, como se a melancolia daquela canção tivesse algo de mesmerizante, de insuportavelmente atraente.

“Sabe, o senhor é um homem bem tristonho”, comentou Maneca, um sorriso modesto contorcendo a boca de lábios grossos e incrivelmente vermelhos.

“Você também seria, se tivesse matado alguém”, assentiu o velho.

“Você já matou um homem, velho?”, perguntou Maneca.

“Não.”

Maneca franziu o sobrolho, numa expressão de estranhamento à resposta – conversa mais sem pé nem cabeça.

“De qualquer forma, acredite, eu sei como é”, disse por fim.

“Eu acredito em você”, respondeu o velho.

Pela primeira vez na noite, ergueu o rosto completamente e encarou Maneca. Antes que o ruivo forte pudesse ter certeza de a quem pertencia aquela cara levemente familiar, os olhos muito verdes do velho flamejaram. Num gesto rápido, ele levou uma mão às costas e cravou na garganta do ruivo uma grande faca disforme. O ruivo cambaleou, soltou um ruído de desespero, gorgolejou afogando-se no próprio sangue. A mercearia tinha agora poucas pessoas, que demoraram algum tempo para entender o sucedido; dona Lúcia soltou um grito de horror. Maneca caiu junto ao balcão, os olhos vidrados de terror fitando o rosto daquele que o degolara. O velho mostrou àqueles olhos de vidro o violão onde estava inscrito o nome do filho.

“Joaquim era um bom filho”, arrematou.

Ninguém jamais soube seu nome. Viveu ainda por dois ou três minutos, o tempo que os companheiros de Maneca precisaram para extingui-lo a socos.

janeiro 13, 2009

A tempestade – parte I

Filed under: contos — Sandoval Matheus @ 3:01 am
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Mais lágrimas são derramadas pelas preces atendidas do que pelas que ficam sem resposta.
Santa Tereza de Ávila

A velha jamais precisou dos serviços de meteorologia. Para isso tinha o braço. Se o aguaceiro se avizinhava, ele doía desgraçadamente. É que o quebrara duas vezes, ela explicava. Ficara assim, meio besta, mas alguma serventia ainda tinha. Havia ainda os sapos. Se alguém matava um sapo, os céus vinham abaixo, garantia. A velha desconfiava que os sapos eram criaturas muito estimadas por Deus, do contrário não haveria motivos justificáveis para que a simples morte de um deles resultasse naquelas tormentas, dia após dia, que pareciam resolvidas a diluir o mundo. Por precaução, sempre que havia uma horta semeada de pouco, ela policiava os meninos. Porque os meninos têm uma natureza perversa, dizia; estão sempre entretidos a matar, mutilar ou torturar todo ser vivo que estiver ao alcance das mãos e que for condizente com suas parcas forças – por desgraça, podia ser um sapo, e daí a horta iria água abaixo.
Enfim, começava sempre com um sapo, então vinha o braço, e então chovia dias a fio.
Naquela manhã, a borrasca trazia ventos que atiravam saraivadas d’água contra a vidraça dos automóveis, a enxurrada descia voluptuosa pela rua oblíqua e os guarda-chuvas amontoavam-se na calçada insuficiente, desastrados, prontos para espetar o primeiro olho desapercebido que lhes cruzasse o caminho. Gregory apertou o passo, ziguezagueou entre os carros ao atravessar a rua e então correu, uma atitude humana mecânica, mas que sob aquele temporal era tão somente inútil. Chegou ao número 522 – ele ainda fora obrigado a parar sob a chuva para checar o endereço – encharcado até os ossos. Uma grande porta de vidro abriu-se solicitamente e ele adentrou o prédio deixando uma farta trilha d’água sobre o piso de mármore. De frente para o elevador aguardou que a luz do térreo brilhasse e uma enorme boca mecânica se abrisse para engoli-lo como um biscoito molhado. A moça com a qual cruzou achou-o zangado. Na verdade tinha o cenho franzido por causa dos rins doloridos – ele estava sempre molhado –, uma dor galopante, porém suportável, porque havia se tornado crônica. A moça ainda reparou na sua magreza atávica, naqueles braços que pareciam de barbante, o osso do cotovelo à mostra, ameaçando romper a pele. Gregory era justamente o que aparentava ser: um homem de saúde frágil.
O elevador fez o que se espera que façam todos os elevadores: conduziu-o, sem perguntas, ao décimo oitavo andar. Sem perguntas, sem apertos de mão, sem sorrisos amarelos, sem tapinhas nas costas – no mundo das máquinas não há convenções sociais idiotas.
Gregory perambulou por corredores intensamente iluminados que contrastavam com a manhã escura lá de fora, os olhos indo de um lado a outro, atentos às discretas plaquinhas de metal que identificavam as portas. Um sinal de riqueza, pensou, porque a discrição é uma qualidade dos que estão acostumados ao dinheiro. “Dr. Alberto de Mattos Gomes”, dizia uma delas, e ele entrou sem bater. O advogado sorriu-lhe; um sorriso de estandarte, de plástico, algo como se, sem o conhecimento do cérebro, os músculos da face tivessem atentado abruptamente para o visitante; mas ainda assim um sorriso, o que, diante da invasão, indicava um homem tolerante. Um homem, disse Gregory em pensamento; mais do que tudo, um homem. Um homem dentro de roupas adequadas – um terno bem cortado e engomado –, que trabalhava num local adequado, que tinha adequadamente sua própria sala e sua própria mesa e, acima de tudo – o que realmente importava –, um homem adequadamente seco, e não aquele saco de ossos molhados que agora se apresentava a ele. Havia, portanto, um tênue fio de esperança, ao qual ele agarrou-se com os dentes, como um cão vadio se agarraria a restos de açougue. É essa ânsia, afinal, que faz a humanidade seguir adiante. As esperanças, por si só, são sempre delgadas, prontas a rasgarem-se na primeira rajada de vento. São os homens, criaturas de imaginação fantástica, que as transformam em cabos de aço capazes de sustentar vidas inteiras – e muitas vezes dão pelo fato de estarem em queda livre demasiado tarde.
Dr. Gomes indicou-lhe com um gesto uma das cadeiras do outro lado da mesa em que estava instalado. A naturalidade com que fez isso, depois daquela invasão, pegou Gregory desprevenido; parecia que o aguardava. Hesitou, como se aguardasse a chegada da decisão – talvez ela ainda estivesse lá fora, procurando a sala –, mas por fim sentou-se, observando pela grande janela atrás de Dr. Gomes o céu de uma cor cinza que lembrava inox engordurado. Uma gota d’água saiu das gadelhas molhadas e escorreu por todo o seu nariz bem feito – já fora bonito –, dependurando-se na ponta dele, como que a analisar suas narinas, um alpinista que nas alturas verifica a segurança de uma gruta. Ficou lá por alguns momentos, e então soltou-se, meio suicidamente, caindo sobre a sólida e escura mesa de madeira.
Com o indicador, Dr. Gomes ajeitou os óculos e olhou aquela sombra encharcada prostrada à sua frente. Uma aparência mendicante: a barba rala por fazer, os cabelos desgrenhados, os ossos saltando à face. Balançou levemente a cabeça de um lado a outro, em uma parcimoniosa reprovação. Não uma reprovação veemente, mas sim a reprovação complacente da experiência. Algumas pessoas transmitem a estranha e incômoda sensação de conhecer-nos mais do que acreditamos que deveriam. Diante daquilo, Gregory sentiu-se um animalzinho de estimação que tivesse feito alguma bobagem fora da caixa de areia. Da gaveta onde guardava uma porção de toalhas brancas, Dr. Gomes tirou uma; estendeu-a.
– Logo, logo você vai precisar de um caiaque, não acha? – disse o anfitrião, enquanto Gregory secava a cara. A pele tinha veias nítidas, um rosto flácido, translúcido, com mais água do que seria anatomicamente sensato. Os dedos eram amarrotados como os de alguém que se demora em demasia no banho.
– Disseram-me que você pode fazer estiar – rebateu Gregory, esgotado, os ombros descendo ao fim de um suspiro.
– É? E como você pretende que eu faça isso, meu jovem? – quis saber Dr. Gomes, os lábios retesados num esboço de sorriso.

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