troços & destroços

julho 25, 2011

Winehouse e as drogas

Filed under: Uncategorized — Sandoval Matheus @ 12:25 am

A essa altura do campeonato, até os cães da rua já devem saber, mas vou repetir a informação de qualquer forma: Amy Winehouse, a diva desestruturada e problemática, morreu. Ao que tudo indica, de morte morrida mesmo. Morreu como morre qualquer ser vivo que surja sobre a face do globo, mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos dor. É o curso natural das coisas, com a possível exceção de Oscar Niemeyer.

Mas é claro que não ia passar batido. Amy Winehouse é agora a perigosa demônia enviada à Terra por Satanás para cooptar nossa singela juventude por meio das drogas – talvez tenha até ligações com o Lula. Um danado de um mau exemplo. O que ninguém sabe me explicar é por que diabos teria ela que dar bom exemplo a quem quer que seja. Era um artista, uma cantora e como qualquer cidadã do mundo tem o direito de viver como lhe parecer melhor. Afinal, ninguém, por ocasião de nosso nascimento, faz a gentileza de nos perguntar se estamos mesmos dispostos a encarar a barra pesada aqui de fora. De modo que partimos do pressuposto de que estamos liberados para encontrar nossas próprias válvulas de escape. E, claro, da mais que óbvia conclusão de que temos inalienável direito sobre nosso próprio corpo e portanto de enfiar o que bem entendermos dentro dele. E nem o Estado nem ninguém tem coisa alguma a ver com isso.

Amy Winehouse ultrapassou os limites do razoável? Provavelmente sim. E repito: nem eu nem você temos algo a ver com isso. Dito assim, vamos para segunda parte. Qualquer política sobre drogas não pode ser embasada numa amostragem anedótica como a dela. Era um caso extremo. Há um bonde de pessoas espalhadas por aí fazendo aquilo que a humanidade faz desde sempre, que é utilizar alteradores de consciência, e mantendo suas vidas em relativa harmonia (relativa até aquele ponto em que qualquer um de nós, com ou sem drogas, consegue manter alguma coisa em harmonia cá neste mundo doido); trabalham, estudam, namoram, leem um livro, veem um filme e no intervalo levam o cachorro passear no parque. O tal uso para fins recreativos. Não são criminosos nem doentes, apenas usuários procurando um jeito de dar uma relaxada ou se divertir pura e simplesmente.

Portanto, o discurso de que “olha só o que acontece com quem usa drogas” é uma falácia; a esmagadora maioria dos usuários jamais vai alcançar o pico de Amy.

Ela era uma excelente cantora, e as drogas eram parte importante do que ela se tornara. Naturalmente, não fizeram sozinhas uma artista, mas eram uma parcela da equação, para o bem e para o mal. Acredito realmente nisto: se ela não fosse quem era, talvez nem tivesse composto a obra que nos deixou (as letras, por exemplo, de forte teor biográfico, com certeza não seriam as mesmas). Lamentar sua morte por conta de uma possível produção futura não faz sentido. Viveu como escolheu e produziu de forma compatível com isso. O ciclo está fechado.

Que a terra lhe seja leve.

5 Comentários »

  1. Possivelmente “uma parcela da equação”…., nessas horas Sandoca, Eu não sei dizer se é “para o bem e para o mal”, mas ter uma visão tão real do que realmente é real faz a gente se sentir um pouco mais real e vivo.
    Abraço garoto.

    Comentário por Anônimo — julho 25, 2011 @ 1:45 am

  2. mas o que é real para você, Anônimo? ‘Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é’, penso que podemos lamentar, mas não julgar… Gostei do post sandova!

    Comentário por Ju Vitulskis — julho 25, 2011 @ 4:18 am

  3. desculpe seu anonimo, acho que interpretei errado seu comentário… mas ainda fica a dúvida do que é real…

    Comentário por Ju Vitulskis — julho 25, 2011 @ 4:24 am

  4. Queria compartilhar teu texto no facebook!
    Muito bom
    elma

    Comentário por Elma Nery — julho 25, 2011 @ 4:18 pm

  5. Parabéns, Sandoval. Seu texto enriqueceu o mundo 2.0, onde muita gente largou argumentos fracos e repetitivos sobre a Amy.

    Mari Braga.

    Comentário por marianabraga — julho 26, 2011 @ 12:24 am


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