Uma cena de “Bestas-feras”, segundo texto que escrevo pra teatro. No fim, acho que vou aproveitar o fim de ano pra reescrevê-lo, mas fica aí um pedaço. Quem quiser, pode me avacalhar nos comentários: estão aí pra isso mesmo.
***
(No centro do palco, o pai, olhando para o chão – a horta –, sentado em uma cadeira de rodas.)
Pai (caduco) – Estão cada vez mais bonitos. Como vocês têm passado? Hein? Tenho vindo pouco. Eu sei, eu sei.
(O irmão mais velho surge na beirada do palco, visivelmente bêbado, e fica olhando o pai.)
Pai – Uma saudade de vocês. O bom é que aqui pega bastante sol. Não é? (Saudoso.) Gostava tanto. Tanto. (Voltando à horta.) Precisam de água? Água… Vou mandar darem água pra você. Os meninos. (Subindo os olhos.) Tanto tempo que não chove. Claro que precisa de água. (Uma pausa. Como que ouvindo o que lhe diz a horta.) Não se vive sem água. Não se vive. (Pausa.) Faço tudo, tudo. Você sabe. Eu não quis… Eu não quis…
(O mais velho começa a ir em direção ao pai. Balança a cabeça de um lado a outro.)
Mais velho (a caminho) – E eu achava engraçado ver a vó falar com samambaias…
(Chega até a cadeira do pai e pega os “guidões”.)
Mais velho – Oi, pai. Pronto?
Pai (aéreo) – Volto amanhã, volto amanhã… Ou mais tarde, mais tarde…
Mais velho (começando a empurrar a cadeira) – Então, lá vamos nós. (Anunciando.) Vai começar mais uma Corrida Maluca!
(A luz cai por um instante, para indicar a troca de ambiente; eles estão entrando em casa. Durante esse tempo só se ouve a voz do mais velho: “E lá vem, em primeiro lugar, o Barão Vermelho”. As luzes se acendem. O mais velho para a cadeira em frente a um aparelho de tevê. Continua: “Em segundo, o Cupê Mal-Assombrado. E em terceiro…”. O mais velho ajoelha-se em frente à cadeira, junto ao pai.)
Mais velho (com ternura) – Quem vem em terceiro, será, pai?
(O pai o olha com o semblante de quem não está entendendo coisa alguma. Nem ao menos reconhecendo o homem a sua frente.)
Mais velho (dando-se conta da própria infantilidade) – Bem, esquece. (Pausa.) Vamos ligar a tevê. (Liga o aparelho.) O “Pernalonga”. Gosta do “Pernalonga”, pai? (Sem resposta, decide-se.) O “Pernalonga” é legal.
(O irmão mais velho deixa o pai ao fundo do palco, com a tevê. Vai até a boca de cena, serve-se de uma dose e senta-se em uma poltrona. Suspira, como que depois de ter executado uma tarefa que exigiu muito de seus nervos. Bebe. A luz cai um pouco, até chegar à penumbra, indicando que o dia transcorreu e já é noite adiantada. O silêncio é quebrado pelos sons de uma sessão de espancamento, algo que ocorre dentro da mente dele, como uma lembrança. Uma voz brutal de homem ressoa, entre gemidos de dor juvenis: “Traficantezinho de merda!”, grita o homem. O mais velho bebe um longo gole do copo.)
Mais velho (contando uma história para um interlocutor inexistente) – Meu pai era delegado. (Refletindo.) Nunca entendi o que leva alguém a ser delegado. Policial, que seja. Um salário miserável, a reclamação geral. Uma arma, uma compensação. (Professoral.) Num mundo de homens que fazem a cutícula, tingem os cabelos e passam horas passeando em shoppings centers, a polícia dá um passe livre para exercer nossos instintos mais primais, nossa violência ancestral. Creio. Um motivo para parar quem te olha torto na rua. (Lunático.) Mão na cabeça! Geral, malandro! (Voltando.) O topo da cadeia alimentar. Na falta de uma guerra, não existe terra-de-ninguém. A porra toda é dele. (Pausa. Gole da bebida.) Para outros, o sentimento de ser a lei, a Justiça. Mas que é a Justiça? (Com as palmas da mão para o ar, sopesando algo imaginário.) Uma coisa que depende de muitas variáveis. A lei, o espírito da lei, etc. (Pausa.)
Faz um tempo que ficou naquela cadeira. Deu no jornal. Uma nota: “Policial aleijado no nobre exercício do dever”. (Risinho nervoso.) Um jeito bacana que um repórter encontrou para dizer que ele foi linchado. (Pausa.) Na outra noite tinha despejado nas redondezas um moleque meio aos pedaços. Estava longe, nessa época. Eu estava. Mas dizem que o tempo demorou para remendar, mesmo que mal e porcamente, a carcaça humana lançada pra fora de uma viatura numa madrugada de junho. Nunca vi, o moleque; e agradeço por isso. A vida me dispensou ao menos essa cortesia. Que porra ia eu dizer? Desculpar-me seria patético. De qualquer forma, parece que até hoje é um homem meio retorcido, um arremedo de gente que poderia passar pelo refugo do catálogo de bizarrias de um circo antigo.
Era esse o tipo de trabalho que meu pai fazia. Era esse era o tipo de obra grotesca dele. Um coração de ouro. Duro e vil como o metal.
(O grito bruto e cínico do homem na sessão de espancamento: “Hoje você vai aprender onde fica cada nervo desse seu corpo de merda!” Um urro juvenil de dor. Uma pequena pausa, quando se ouve apenas os gemidos do torturado.)
Mais velho – Um moleque. Vai saber, 17, 18 anos. Com 200 gramas de escama-de-peixe. Cocaína. Pó. Um moleque que deu o azar de cruzar o caminho de um soldado desocupado querendo mostrar serviço e que o largou dentro da jaula de uma besta-fera. (Com um sorriso louco.) Meu pai. (Passando a mão pelos cabelos, num desespero contido. Depois, a cabeça de um lado a outro.) É muita crueldade, covardia. A maioria desses executivos e vendedores de shopping-centers são uns cheirados. E nunca soube que meu pai tenha esculhambado algum deles.
(A voz do homem na sessão de tortura: “Você deu azar, traficantezinho. Hoje eu esqueci a compaixão na minha gaveta de cuecas”. O mais velho dá um gole da bebida. Levanta-se. De um lado a outro, na boca de cena.)
Mais velho – A maior das merdas é que a fruta nunca cai muito longe do pé. Eu sei disso. (À beira do desespero.) As pessoas dizem que depois dos 30 você vai descobrindo como se parece com seus pais. (Parando na boca de cena e encarando a plateia como se fosse um espelho.) Meu rosto é igual ao dele, lanhado. Os ombros também. Permanentemente retesados, como se eu sempre estivesse à espera de uma pancada. (Pausa. Volta a andar.) Se o problema fosse só ele seria fácil. Está feito. Quando a família é o problema, é simples. Livrar-se da família é fácil. Se vai embora, pronto. (Pausa.) Mas livrar-se de nós mesmo é impossível. (Pausa. Gole da bebida.) Meu pai viaja meu sangue, está inscrito em meus ossos, percorre meus nervos. (Pausa. Com a consciência de que não terá forças para conter-se sempre.) Meu pai está metido em mim, como uma infecção irremediável.