troços & destroços

outubro 25, 2010

Serra, o santo e o louco

Filed under: Uncategorized — Sandoval Matheus @ 5:14 pm

Ninguém deve se surpreender se, em seu último programa de televisão, José Serra, o santo, aparecer andando sobre as águas (talvez por milagre, possivelmente por trucagem de computação ou mais provavelmente por terem, enfim, ensinado-lhe alguma coisa as enchentes em São Paulo).

Não estou exagerando. José Serra, o homem que faz andar os lázaros e que cala as tempestades, que julga a humanidade por sua “régua” e a declara de pouca fé, faz lembrar um louco no palco do absurdo, um personagem teatral pensado por Eugène Ionesco (e de uma peça de Ionnesco pode-se esperar qualquer coisa).

Nem mesmo FHC, creio, deve se furtar, a essa altura do campeonato, de estar envergonhado com os rumos da candidatura (ou cavalgadura) de José Serra. No fundo de sua memória deve ainda ecoar o episódio em que, à época em que era candidato a prefeito de São Paulo, foi perguntado em um debate se acreditava ou não em Deus. Ateu convicto como é (e como também o sou), mas sabendo que uma resposta sincera colocaria a perder a eleição, FHC embananou-se todo, tergiversou e, da mesma forma, perdeu. Ao ver a tentativa de assassinato de reputação, de sangrar Dilma Rousseff em praça pública (agora, além de “petralha” e “terrorista”, também “abortista”, “lésbica”, malfeitora e, conforme ouvi de uma velhinha dias atrás em um restaurante, “uma mulher sem Deus no coração”), FHC deve conceder a ela alguma simpatia – os seres humanos vítimas dos expedientes de um mesmo algoz tendem a ser solidários uns com os outros.

O exemplo de FHC deixa claro que, se José Serra deu alguma contribuição a essa campanha, foi a de atrasar o debate democrático no Brasil em pelo menos 20 anos. Ao próximo presidente, seja quem for, estarão vetados temas como o aborto e os direitos civis dos homossexuais. José Serra, o santo, fez ao Brasil o favor de organizar as forças mais reacionárias do país. Tomando a figura de José Serra como referência, as forças retrógradas de setores das igrejas católica e evangélica, personificadas na triste figura do pastor Malafaia, reagruparam. E estão ainda mais atiçadas com a demonstração que tiveram da própria força. Tempos difíceis virão.

Mas Serra, o santo, é também o louco. Não tem apenas vontade de ser presidente; tem verdadeira obsessão pelo cargo. Em sua loucura, vira piada com o auê que causa ao ser atingido na rua por uma bolinha de papel ou ao ter a coragem de pedir na Justiça direito de resposta a um tweet (um dos microposts da rede Twitter, anárquica em sua própria essência). É, no mínimo, demente.

Essa, porém, é apenas a parte engraçada da figura lunática de José Serra. Esse verdadeiro palhaço no palco do absurdo, em sua obsessão, em sua loucura, não pensa duas vezes antes de tratorar adversários e aliados, a fim de limpar caminho rumo ao triunfo final – a Presidência. Pedro Mallan, Roseana Sarney, Aécio Neves e Dilma Rousseff são apenas algumas das vítimas da loucura institucionalizada por José Serra dentro do PSDB paulista, que não liga muito, como se vê, para matizes ideológicos. José Serra, o santo, o homem “do bem”, o defensor da democracia que vive a alardear a truculência de Dilma Rousseff e do PT, não se constrange ao confiscar fitas de entrevistas que ele mesmo deu ou ao ligar para os barões da grande mídia madrugada já avançada, a fim de pedir mais uma cabeça da redação.

Essa é a figura de José Serra, santo e louco, mas também cínico e brutal, na qual cerca de 40 milhões de brasileiros dizem que irão depositar seu voto no próximo dia 31. É claro que, a essa altura do campeonato, não pretendo alterar o voto “ideológico” de Serra. Esse é o voto de pessoas conforme as citadas em matéria da Folha de São Paulo de hoje (25), quando escrevo este texto. Pessoas desumanas a ponto de dizerem frases como esta: “Não acredito em nenhuma solução que não passe pelas elites. A solução que não passar [pelas elites] é meia-sola”. Ou esta: “Ela nem brasileira é”, pronunciada por um ex-militar que acusa Dilma de ser búlgara ao mostrar um documento notoriamente forjado – qualquer semelhança com os ataques sofridos por Barack Obama na campanha estadunidense não é mera coincidência; a direita brasileira cada vez mais se aproxima da caricatura norte-americana. Esse é o voto consolidado em José Serra e esse voto não pretendo alterar. Porque esse é o voto que faz coro ao discurso de um Demóstenes Torres, aliado de José Serra que chega ao cúmulo de negar a escravidão e, por outras palavras, chama as negras estupradas e devassadas por senhores e sinhozinhos à época de “vagabundas” – esse voto eu não quero.

Quero sim um outro voto, o voto daqueles eleitores que não conhecem suficientemente o âmago de José Serra, seu núcleo duro; o voto, por assim dizer, desavisado. Daqueles que não sabem que, por trás da imagem fabricada do homem de “coração leve” (que, aliás, não convence ninguém) há alguém autoritário e vingativo, capaz de mandar a polícia espancar professores em uma manifestação pacífica.

Diante desse quadro, ficar indiferente nestas eleições chega às raias do criminoso. O segundo turno deixou bem claro de que lado estão as forças progressistas, populares. Coisa comprovada pelo levante da sociedade civil, que, diante da tragédia que uma possível eleição de José Serra seria, começou a fazer pipocar em todos os lados manifestos e atos públicos em apoio à candidatura de Dilma Rousseff. O Brasil foi pra rua cerrar fileiras contra o avanço das hordas obscuras do tucanato, que tentou transformar a eleição numa cruzada santa.

As forças progressistas estão, portanto, com Dilma Rousseff e contra José Serra, o santo e o louco. As cartas estão aí, na mesa. Basta olhá-las.

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