(Perfil que escrevi algum tempo atrás. Começo a publicar aqui no blog.)
À primeira vista, o homem que lê o jornal no terceiro andar do número 969 da Rua Visconde do Rio Branco não parece um morador de rua. Traz os cabelos penteados e o rosto barbeado; um cavanhaque, que começa a ficar grisalho na ponta inferior, decora o centro do queixo. A camiseta – em cuja gola se dependura um par de óculos escuros –, a calça jeans e as sandálias de couro aparentam limpeza. Em sua conversa, usa adjetivos como “paleozóico” e “dantesco”, faz referências históricas a Roma, cita Newton e Einstein; por causa de sua formação matemática, fala de sistemas alfa-numéricos e da busca pela equação geral dos números primos; é capaz ainda de tecer impressões sobre o melhor livro que já leu, A máquina do tempo, de H. G. Wells, autor que para ele é “mais que um literato, é uma literatura”.
No entanto, o homem que lê o jornal no terceiro andar do número 969 da Rua Visconde do Rio Branco mora na rua. Ou pelo menos a maior parte do tempo; a cada duas ou três noites que passa sob o sereno ele tenta conseguir dinheiro para uma diária num hotel barato. Na grande e inseparável bolsa que traz consigo guarda alguns víveres básicos: cadernos, canetas, celular, um CD regravável, materiais de higiene pessoal e cigarros Free azul, que ele toma o cuidado de só acender depois de arrancar os filtros com uma dentada. Há ainda uma blusa – insuficiente para as noites gélidas de Curitiba, mas substancialmente mais quente quando o homem do jornal dá a sorte de cruzar pelo caminho com uma caixa de geladeira vazia – e alguns exemplares da primeira edição de um dicionário capaz de traduzir cerca de 7,2 mil palavras para um total de sete línguas. “São 42 dicionários em um!”, exclama ele. Mesmo assim, o dicionário do homem que lê o jornal ainda é completamente desconhecido sob a face da Terra. Ou quase. Ele já foi apresentado a alguns garçons e a outros tantos editores – cerca de 40, brasileiros e europeus. Às vezes os garçons de restaurantes chiques da cidade compram os dicionários do homem que lê o jornal. Nem sempre pelo preço correto, porém, de trinta reais; então eles sugerem que o homem do jornal troque um dicionário por um refrigerante e dois sanduíches, por exemplo – e se o homem tem fome, ele aceita. Já os editores são mais indóceis; invariavelmente o homem que lê o jornal recebe deles uma carta – ou um telefonema – mais ou menos com os seguintes dizeres: “Obrigado, mas não estamos interessados na publicação da referida obra”. E nas entrelinhas dessas correspondências ou no tom dessas vozes quase sempre se pode perceber um “por favor, não insista”.
Mesmo assim, esses dicionários são a coisa mais importante do mundo para o homem que agora folheia o jornal.
Ele costuma dizer que tem o avião; falta-lhe apenas a gasolina.
“São um manual de sobrevivência”, elucida, tirando um dos dicionários da bolsa. “Bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, obrigado – são coisas que você vai precisar saber”.
“A significação de uma palavra é dada por sua potência”, o homem explica. “Literatos e dicionaristas não perceberam isso. É algo inédito no mundo!” Com isso, Marcelo Simões, 44 anos, quer dizer mais ou menos o seguinte: no dicionário pensado por ele, cada termo recebe um número, graficamente localizado mais ou menos como a potência em uma fórmula matemática. O segredo está no fato de uma mesma designação, nas diferentes línguas, se dar pela mesma potência. Assim, se “água” recebe a potência dois em português, “water” receberá o mesmo número em língua inglesa, o que acontecerá igualmente nas outras cinco línguas. As diversas formas para traduzir “água” estarão no fim do livro, agrupadas sob o guarda-chuva “2”. Fica fácil, dessa forma, traduzir qualquer termo para qualquer uma das sete línguas, que também são graficamente diferenciadas por uma cor específica: as palavras em português estão em verde, as em inglês em vermelho, as em alemãoem amarelo… Defato, parece engenhoso.
A ideia do dicionário de “potências” começou a surgir quando, em 2000, Marcelo desembarcou na cidade de Amsterdã, cidade pela qual tem verdadeira adoração, às 21h30 de uma sexta-feira, sem sua mala; ela havia ficado em um guarda-volumes na cidade de Amstel, a dez minutos dali. Trazia consigo, além do corpo maltratado pela viagem de 36 horas de trem a partir de Lisboa, dez escudos – na época a moeda portuguesa, que equivalia a mais ou menos cem reais –, um violão e um guarda-chuva. O guarda-chuva mostrou-se providencial; a primavera holandesa era péssima anfitriã: fazia cerca de 12 graus e garoava. O violão nem tanto. Mesmo assim lhe rendera naquela primeira noite uma moeda, ainda que de forma involuntária – de qualquer forma, o início das dificuldades de comunicação em terras estrangeiras. A moeda fora atirada por uma senhora ainda na estação de Amstel, quando Marcelo cutucava as cordas do violão descompromissadamente. E os esforços do brasileiro para explicar que não estava tocando por dinheiro foram absolutamente inúteis; a senhora dissera alguma coisa incompreensível e lhe empurrara as moedas de volta quando ele tentou devolvê-las.
Pouco importava, porém. Estava na Holanda. Na Holanda! Visitar o país era uma espécie de sonho antigo. Considerava aquele o último lugar do mundo onde “o homem ainda era livre, onde o indivíduo estava acima de tudo”. Anos mais tarde, lembraria que a Holanda – a Holanda!, não era maravilhoso? – cheirava a chocolate, canela, café e maconha; em suma, um paraíso perdido entre os escombros da Terra.
Lembraria também da noite em que avistou um junkie urinando em uma estação de trem, sob os olhares de um guarda e de um estrangeiro.
“De onde eu venho, isso é atentado violento ao pudor”, dissera o estrangeiro.
“Para nós isso é um estado de necessidade”, replicara o guarda.
Deus havia feito o mundo, os holandeses haviam feito a Holanda; haviam feito diques para impedir que o mar lhes tomasse a terra – e aquele era o último lugar onde o homem ainda era livre, onde o indivíduo estava acima de tudo.
Na estação de Amsterdã encontrou outros quatro jovens estrangeiros do leste europeu, que, exaustos, dormiam em pé, encostados às paredes. Era permitido dormir na estação; não era permitido deitar-se, no entanto, e Marcelo descobriu isso assim que um dos jovens começou a deslizar, dormindo, em direção ao chão. Um dos guardas se aproximou e, usando o cassetete, acordou-o com um leve cutucão. Logo, outro dos jovens começou a deslizar parede abaixo e também foi despertado por um cutucão – e assim sucessivamente. Qualquer um que se desse ao trabalho de assistir à cena por um tempo concluiria que se tratava de uma estranha coreografia. Mal os guardas davam as costas, os homens voltavam à complexa e desconfortável tarefa de dormir em pé; era uma questão de tempo – pouco tempo, já que os estrangeiros aparentavam estar terrivelmente fatigados – até que um deles precisasse empunhar o cassetete e se dirigir outra vez e pacientemente até eles, para despertá-los com mais um leve cutucão. O sono era um inimigo terrível, e os guardas pareciam ter a exclusiva função de cutucar, como se estivessem lidando com algumas crianças inconvenientes, mas inofensivas.
Súbito, um dos dorminhocos deslizou até o chão e então não haveria guarda em toda a Holanda suficientemente especializado na arte dos cutucões que o pudesse acordar; havia desmaiado de sono; provavelmente nem pontapés conseguiriam tal feito, mas os guardas holandeses eram civilizados demais para tais métodos. Uma ambulância, que carregou dali o homem inerte, pareceu a todos uma opção mais apropriada.
Todo o espetáculo deixara Marcelo impressionado, principalmente o último ato, no qual uma ambulância com o giroflex ligado e fazendo todo o barulho possível carrega um estrangeiro para algum lugar indefinido de um país estranho. Na manhã seguinte, Marcelo encontraria o mesmo homem sentado na lanchonete da estação, tomando café calmamente, com uma aparência muito melhor do que aquela que tinha quando se estatelara no chão algumas horas antes. Então seria informado que a ambulância o havia levado para um local financiado pelo governo, onde pudera dormir algumas horas e ainda ganhara comida, banho, uma nova muda de roupa e algum dinheiro, que financiava o café.
Agora, no entanto, o melhor a fazer era sair da estação. À meia-noite, de qualquer forma, ela fechava, e então ninguém, com a exceção dos guardas, tinha permissão para ficar em seu interior.
Vagou pela cidade toda a noite; constataria, adiante, ao ver um mapa de Amsterdã, que não fora apenas isso – realmente andara por toda a cidade, fazendo uma espiral. Levava o violão junto ao corpo, protegido pelo guarda-chuva aberto. Durante o passeio, sentiu falta de duas coisas: marquises e mendigos. Concluiu daí que uma era consequência da outra; o descrédito que a arquitetura holandesa dava às marquises teria levado os mendigos à extinção no decorrer dos séculos; possivelmente teriam todos morrido de pneumonia.
Trinta e seis horas de viagem e uma noite de perambulações o fizeram, na manhã seguinte, juntar-se ao grupo dos estrangeiros dorminhocos sem teto que dormiam em pé na estação e levavam cutucões dos guardas. Passou assim todo aquele fim de semana.
Na segunda-feira, se agravaram os efeitos da “Torre de Babel”.